sábado, 18 de fevereiro de 2017






Evgueni Evtuchenko – Autobiografia Precoce

Julio Pujol

A primeira verdadeira biografia que li na vida foi Eu (Eu mesmo) do poeta russo Wladimir Maikovski; uma autobiografia. Hoje acredito que uma verdadeira biografia só pode ser uma autobiografia.
Vinte anos depois termino de ler “Autobiografia Precoce” do também poeta russo Evgueni Evtuchenko. Novamente uma verdadeira biografia. Novamente uma autobiografia (embora precoce).
Nascido em julho de 1933 numa longínqua e pequena estação ferroviária da Sibéria chamada Zima, perto do Lago Baikal, Evtuchenko viveu os duros anos iniciais da Rússia Revolucionária. Cresceu no período stalinista e assistia as paradas militares na Praça Vermelha de Moscou ao mesmo tempo em que perdia os avós para a repressão política do regime. Eram tempos do “culto a personalidade” do líder.
Tinha oito anos quando, em 1941, os nazistas invadiram a Rússia. Viveu as durezas da guerra; viu jovens soldados siberianos casando-se e no dia seguinte partindo para o front. Pôde ver também os prisioneiros alemães derrotados desfilando humilhados pela Praça Vermelha. De todo este período ficou sua grande convicção pela paz.
Por opção e rebeldia saiu de casa e viveu nas ruas. Ali aprendeu a enfrentar e resolver sozinho os seus problemas. Aprendeu a superar o medo e vencer as situações mais difíceis. Assim aprendeu também a defender a sua poesia e as suas ideias no futuro.
“Do meu banco, debaixo do retrato de Stalin, o olhar fixo através da janela, eu sonhava em escapar para uma outra escola, a escola da grande cidade que cheira a neve e a cigarros, a gasolina dos automóveis e ao quente pirojki dos vendedores das ruas.”
Saiu a trabalhar como aprendiz numa expedição geológica nas estepes do Kazakistão. Ali aprimorou seu conhecimento sobre o homem, matéria-prima de sua poesia. Conviveu com camponeses, soldados, trabalhadores, técnicos. Descobriu a ternura feminina. Conheceu também homens maus que, de resto, não abalaram a sua convicção na humanidade.
“A partir desta data soube que não há nada no mundo de mais precioso que a inimitável, magnífica e comovedora ternura feminina. Soube que, de todos os valores duvidosos que o mundo reconhece, a ternura é a única que na realidade é eterna.”
Voltando à cidade, jogou futebol em Moscou e daí extraiu também muitas lições. Começou a publicar seus versos num jornal esportivo (o único que os aceitaram na época). Conheceu amigos como Tarassov e Barlas que o ajudaram a refletir sobre poesia. Entendeu que através da poesia precisava dizer algo, ou, ter algo a dizer.
Entrou em crise quando percebeu que seus poemas apesar de belos e bem construídos não diziam nada do que necessitava o homem real soviético do seu tempo.
 “Mas suponhamos que o mundo reconheça o seu talento. Vão esperar que você lhes diga coisas importantes. O que lhes dirá, então, você?” Perguntou o amigo Barlas.
Da crise começou a nascer o poeta maduro. Evgueni começa a fazer poemas mais intimistas, mais reais. Mas nos anos 1950 esse tipo de poesia não era bem vista pelas autoridades, que preferiam a arte exaltando o regime e as qualidades do homem soviético.
“Mas era necessário lutar para fazer triunfar essa concepção, pois nossos críticos literários defendiam na época, a teoria da ‘ausência de conflitos no mundo socialista’. Tentavam demonstrar que, na vida soviética, o conflito não podia mais existir entre os maus e os bons, mas somente entre os bons e os melhores.”
A crítica ao período stalinista nasce de forma contundente em sua obra. Evtuchenko acreditava nos valores do socialismo e do comunismo como valores elevados do humanismo, mas que foram distorcidos e degenerados por arrivistas de plantão.
“O stalinismo é a teoria pela qual os homens são vistos como simples engrenagens mecânicas de uma grande empresa industrial. Aplicada à vida essa teoria produziu resultados aterradores.”
“Assim, o aço tornou-se o herói principal de múltiplos romances. Outros foram consagrados à construção de casas ou ao semeio do trigo. Os seres humanos eram personagens secundários nessas obras. Aliás, nem mesmo viviam. Eram acessórios que permitiam valorizar melhor ‘o trabalho’”.
Em 1953 morre Stalin. E logo depois seus crimes são denunciados e vem a público. O país busca encontrar seu caminho. Muitos cidadãos entram em crise ao perceber que tinham dedicado suas vidas há um regime criminoso e opressor. Os problemas do país começam a aparecer. A Rússia questiona seu futuro.
“Começaram a chegar, dos longínquos campos de concentração siberianos, os primeiros reabilitados. Traziam consigo o relato comovedor de seus infortúnios pessoais e as provas, em medidas gigantescas, das injustiças cometidas na época stalinista.
O povo russo queria que lhe falassem de maneira franca e séria a respeito de suas perspectivas de vida. E ‘vida’, no seu entender e sentir, nunca se limitara a questões de comida e roupa. ‘Vida’, para os russos, é acima de tudo uma questão de futuro.”
Um novo tempo estava por nascer, uma Primavera Russa, segundo o autor. E novas responsabilidades se colocavam sobre os ombros dos poetas. E de Evtuchenko: compreender o tempo atual e jogar alguma luz sobre ele e sobre o futuro. Os poetas são muito considerados na Rússia, mesmo nos dias atuais.
“Para os leitores ocidentais, a afirmação pode parecer pretenciosa, mas é necessário compreender que o poeta, na Rússia, desempenha um papel diferente dos poetas de outros países. Na língua russa, a palavra poeta é quase sinônimo de combatente. Em nenhuma outra nação do mundo a poesia tem uma tradição tão ligada a política. Não é por acaso que os russos consideraram sempre seus poetas como guias espirituais, como os ‘depositários da verdade’.”
Compreende Evtuchenko seu dever de poeta e cidadão de falar para os jovens do futuro. Neste período conhece a poetiza Bella Akhmadulina, que logo vem a ser sua esposa. Bella faz parte de uma seleta de grandes poetizas russas como Akhmatova e Coetaeva.
Em 1955 organiza-se na Rússia o “Dia da Poesia” que se torna uma tradição no país. Milhares de pessoas lotam os salões e as praças para ouvir seus poetas. Nos anos seguintes, na década de 1960, Evtuchenko continua com sua missão de falar aos jovens; de lutar pela liberdade de expressão e pelo resgate dos valores humanistas do socialismo. Foi considerado no Ocidente um dissidente, mas sempre amou seu país e acreditou no futuro do socialismo.
Conheceu Pasternak, e relata no livro o seu encontro com este também grande da literatura e da poesia russa, autor de Doutro Jivago.
Lendo “Autobiografia Precoce”, (publicado pela primeira vez em 1963, quando o autor tinha então 30 anos) é possível compreender o itinerário do poeta até encontrar a sua grande poesia. Uma poesia marcada pela história de seu país, pelo seu povo, por sua terra, por suas imensidões. E é possível conhecer “por dentro” o sentimento do povo russo diante dos grandes acontecimentos protagonizados por ele mesmo no intenso século XX. Com uma sensibilidade de Poeta.
“Nós construímos sozinhos o nosso futuro. Privamo-nos de tudo, sofremos, cometemos erros, mas sozinhos o construímos.
Tenho orgulho de não ser um simples observador, mas de participar na luta heroica do meu povo pelo seu futuro. Penso sempre que tenho tudo diante de mim, assim como meu povo tem tudo diante dele.”
Li, de Evtuchenko, também, Ardabiola. Daí nasceu meu poema “Ardabiola Brasileira”. Sim, no Brasil também temos Ardabiolas.

Evtuchenko ainda vive.

domingo, 8 de maio de 2016

O DIA DA VITÓRIA NA RÚSSIA















No dia 09 de maio os russos comemoram o Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial. É a data mais importante do país. 

A Rússia foi invadida pelo exército de Hitler que desejava fazer ali um outro Holocausto de muito maiores proporções, escravizar o povo e apropriar-se de suas imensas riquezas. Os russos resistiram, expulsaram os alemães e em 1945 chegaram até Berlin, dando fim a maior guerra de todos os tempos.

O preço foi muito alto para o povo russo: 25 milhões de mortos e um país destruído (sim, quatro vezes mais russos morreram na guerra do que judeus).

No ano passado, nas comemorações dos 70 anos da Vitória, eu estava lá, em Moscou. Pude ver a integração, a admiração e o respeito que o povo tem com o seu exército; o sentido de Pátria e o seu nacionalismo.

Estive na Praça Vermelha, no metrô e na Estação de trem Bieloruskaia, de onde partiram muitos soldados para a guerra.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Ivan Turguenev

IVAN TURGUENEV (1818 – 1883)
Julio Pujol


Agrada-me ler Turguenev. Isso é quase uma confissão. Turguenev é fácil. É leve. Lê-lo é como beber um bom copo de água fresca.
            Turguenev é simples. Diferente dos gigantes da literatura russa do século XIX como Tchecov, Dostoiévski e Tolstói, Turguenev não é complexo, profundo, filosófico. Também não é superficial. Penso que está aí o seu mérito. Atingir o simples, e fazê-lo bem, também não é tarefa fácil.
            É como se ele escrevesse para as mocinhas apaixonadas do século XIX, para os salões europeus. Alias, seus escritos parecem não querer tocar no turbilhão transformador da Rússia e da Europa deste século. Um século, diria, de transição, do urbanismo e do capitalismo.
Mas, claro, Turguenev também observa, tem as suas sutilezas. É um homem do tempo. É mundano, moderno, senão seus escritos não teriam atravessado mais de um século, sendo lidos ainda hoje, e sendo colocados como grandes obras da humanidade.
Nascido russo, em Orel, 1818, em uma família de posses, pôde estudar e ter uma vida com certo conforto numa Rússia ainda envolta na servidão (abolida somente em 1861), no analfabetismo e no provincianismo.
Logo que pôde foi para a Europa onde se estabeleceu, e de lá olhava seu país natal com um misto de admiração, nostalgia e desprezo.
Na Alemanha, em Berlim, conviveu com o que de mais avançado havia em seu tempo, seja na literatura quanto na filosofia (particularmente Hegel), e em Baden Baden, conviveu com a “árvore russa”, quer dizer, russos emigrados ou somente em férias, que passavam temporadas neste país. Os russos sempre olharam para a Europa, seja como referência e modelo, seja com superioridade (aquela indiferença típica russa). Isso lhe permitiu manter proximidade com a Pátria nativa.
Contemporâneo dos grandes da literatura russa tinha uma relação também ambígua com eles. De formação europeia, desenraizada da velha Rússia, Turguenev via o seu país de fora; seu espírito crítico e desanimado não era muito simpático na Rússia que buscava afirmar-se como uma grande Nação.
A força da Rússia estava em Tolstói, sua raiz em Puchkin, sua alma em Dostoiévski e Tchecov, sua ironia em Gogol... Mas Turguenev existia. E fez a sua grandeza por outra estrada. Não a estrada dos grandes épicos, do patriotismo exacerbado ou do eslavismo. Os escritos de Tolstói, Tchecov, Puchkin, Dostoiévski, Gogol são universais mesmo partindo da “aldeia” (aliás, aquela frase é de Tolstói); os de Turguenev são cosmopolitas, e olham a Rússia como quem espia para onde vai esse imenso país.
Bom reler Turguenev. Também para mim é como espiar para um jovem (jovial) que também espiava, curioso, de longe, um futuro.
Turguenev corre pelo meu orgânico. Faz parte de minha constituição enquanto ser. Foi emocionante, lá em Petersburgo, dobrar uma esquina e, de surpresa, encontrar uma grandiosa estátua do Conde Turguenev. (lá na Rússia os escritores e poetas tem estátuas e monumentos pelas ruas e praças. E o povo não os depreda; pelo contrário, coloca flores aos seus pés em reconhecimento. É uma coisa de identidade pátria. E Turguenev está lá).
Algumas obras de Turguenev facilmente encontráveis em livrarias no Brasil: “Pais e Filhos”, “Primeiro Amor”, “Ninho de Fidalgos”, “Águas de Primavera”, “Fumaça”, “Mumu”.

É um prazer ler Turguenev.













terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

OS CZARES RUSSOS (II)


                       
Julio Pujol

A Rússia antes da Rússia.

Sendo a Rússia um país milenar e o maior território do planeta é muito difícil traçar uma história linear e que contemple a diversidade de povos espalhados por sua imensidão territorial ao longo do tempo.
Convencionou-se então a abordar a história deste país a partir do sul, da zona das estepes, da região de Kiev, da proximidade com a Europa, do Cáucaso, da Criméia e do Dniepr.
Diz-se que os primeiros povos a habitarem os campos russos foram os citas (da Cítia), no século IV AC, um povo formado por iranianos e chineses, exímios cavaleiros, comerciantes e artesãos que, devido às guerras e dispersões acabaram desaparecendo enquanto povo.
A vasta região então, como caminho do oriente ao ocidente (um dos caminhos da famosa “Rota da Seda” passava pelo que hoje é o sul da Rússia) tornou-se um espaço de passagem, de guerras, de disputas e conquistas entre povos como os Pechenegues, os Kasares, Eslavos, Búlgaros, etc.
No século V, da era cristã, é fundada às margens do rio Dniepr a cidade de Kiev (hoje capital da Ucrânia) que quase quinhentos anos depois se tornaria a primeira capital do que, ainda depois, seria o Estado Russo.
Além de região de ligação entre o oriente (China, Índia) com o Ocidente Europeu, essa região também foi rota Norte-Sul (via rio Dniepr) servindo de passagem aos guerreiros e comerciantes Vikings (suecos, escandinavos) rumo ao rico e desenvolvido Império Bizantino, de capital Bizâncio ou Constantinopla, atual Istambul na Turquia. Esses duas rotas marcaram a constituição inicial da futura Rússia.

                                      (Os Vikings)

Ao norte, próximo a atual São Petersburgo, também se constituíram cidades como Novgorod e Pskov que, assim como Kiev, serviam de entreposto e lugar de abastecimento dos navegantes Nórdicos (Vikings). Eles dominavam o norte europeu e que se deslocavam via o Mar Báltico, o rio Neva e o Dniepr ao sul, até Constantinopla.
Quando em busca de proteção e fortalecimento a cidade de Novgorod busca o príncipe nórdico Riurik em 862 para ser seu governante e em seguida, a partir dele, une-se a Kiev em 882, nasce a primeira Rússia, a chamada “Rus de Kiev” que em poucos séculos se tornará o maior país do mundo.

        (Príncipe Riurik)

Neste período (séculos IX e X) a Rússia deixa a sua pré-história de tribos e clãs, de fronteiras abertas e frágeis e passa a se constituir em um Estado unificado, que busca se consolidar e expandir.
Esse é um período em que também o restante da Europa mergulhava num momento difícil, tentando se recompor do fim do Império Romano. É tempo de Carlos Magno na França e da tentativa de retomada do esplendor da antiga Roma.
A Europa vive o período do Feudalismo e da Idade Média em que o conceito de Estado Nacional não significava muito. Os reinos e principados imperavam, bem como a Igreja Católica buscava se fortalecer e se consolidar em seus mosteiros.

A “Rus de Kiev”:

        A Rus de Kiev nasce com os olhos voltados para o Império Bizantino que, neste período do século IX vivia a sua Renascença. Constantinopla era um grande centro comercial, religioso e cultural, herdeiro das grandes culturas grega e romana da antiguidade. Vale dizer que o Império Bizantino era considerado a “Segunda Roma”. Quando o imperador Teodósio dividiu o império em Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, e Império Romano do Oriente, definiu a capital do segundo como Bizâncio.

Com a queda do Império Romano em 476, em função das invasões bárbaras, Bizâncio se torna a única sede do Império que perduraria ainda, a partir daí, por mais mil anos, até 1453.
Na sua consolidação enquanto Estado a Rus vai buscar no Império Bizantino as suas referências. Assim, são enviados sábios a Constantinopla para estudarem e criarem um alfabeto para a Rus. Os bizantinos falavam a língua grega. Dessa maneira nasce o alfabeto Cirílico (dos sábios Cirilo e Metódio) usado até os dias de hoje pelos russos e alguns outros povos.
Ainda nos séculos IX e X a Rus de Kiev e Constantinopla assinam seu primeiro tratado de comércio e relações. E a Rus de Kiev para ser respeitada no cenário internacional procurou se filiar a uma religião reconhecida, superando o paganismo e as crendices. E é nos bizantinos que a Rus busca a sua religião.


O príncipe Vladimir e a conversão da Rússia


No ano 988-89 o príncipe Vladimir, descendente de Riurik, converte-se ao cristianismo ortodoxo de Bizâncio, levando assim toda a “Rus” à conversão. Mas a intenção de Vladimir não era apenas converter-se, e sim incorporar para a “Rus” os avançados aspectos da cultura bizantina. E assim foi feito.
Do que conhecemos da Rússia hoje, das igrejas aos ícones, da arquitetura aos mosaicos, da língua à pintura, é inegável a herança e influência Greco-bizantina.
Os primeiros príncipes Riurik, Oleg, Igor, Sviatoslav, Yaropolk e Vladimir constroem as bases da unidade do Estado Russo que será consolidado por seus descendentes. Neste período, em torno do ano 1000 D.C., ainda não se falava em Rússia e em Czares. Mas os fundamentos da Grande Rússia já estão presentes. Depois disso, preservar e ampliar as fronteiras até a consolidação de um grande império levou ainda mais de 500 anos.
O que tínhamos no ano 1000 eram cidades (talvez não se possa comparar muito com as clássicas cidades-estado gregas) que possuíam autonomia administrativa, eram comandadas por príncipes, tinham territórios mais ou menos definidos, Assembleias Populares (as Veches) para decisões importantes, muralhas de proteção e, como nos romanos, as forças militares ficavam fora dessas muralhas. Essas cidades estabeleciam alianças entre si para se protegerem de invasores.
Também podiam chamar um comandante de fora para lhes governar (e proteger) em períodos de ameaças externas, assim como também os romanos nomeavam um ditador em tempos de guerra.
Para concluir, a Rússia, após este período de conformação inicial, ainda passaria por muitas dificuldades, divisões, guerras, invasões, até que surja o seu primeiro Czar, em torno do ano 1500.
Isso veremos adiante.

                                                    NOVGOROD                                       

                                            






quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

OS CZARES RUSSOS (GLI ZAR RUSSI) DE RURIK A ROMANOV (I)

OS CZARES RUSSOS (GLI ZAR RUSSI)
 DE RURIK A ROMANOV  (I)






Julio Pujol

                Para um historiador de formação marxista, saber a história e a cronologia dos governantes (príncipes e czares) pouco ou nada ajudaria na compreensão do processo histórico do imenso país, a Rússia.
Por outro lado, para um leigo (quanto à metodologia histórica) talvez explicasse tudo. Ele se sentiria um conhecedor seguro da história ao saber os nomes , as datas e as particularidades de personalidade (afinal Pedro I era um visionário ou um rústico bruto? Ivan IV era mesmo terrível? Quantos amantes teve Catarina?)
O papel do indivíduo na história é um debate antigo entre os historiadores, particularmente os marxistas. Esse enfrentamento teórico produziu incontáveis textos, livros e teses publicadas por décadas. (Não é propósito aqui seguir adiante).
Resumindo, para o marxismo dialético, o motor da história (que a faz avançar) é a Luta de Classes. E a mesma história evolui segundo os referenciais econômicos, mais precisamente aos “Modos de Produção”, comunismo primitivo, escravismo, feudalismo, capitalismo e por fim, as sociedades inexoravelmente chegariam ao comunismo passando, claro, pela etapa do socialismo.
Como se vê, não há aqui nenhuma referência ao indivíduo; a história andaria por si, por suas próprias leis (científicas). O nó do debate era o seguinte: como explicar então, por exemplo, o papel de Lênin e Napoleão na história?
Confesso que me diverti muito nos anos de Faculdade de História (década de 90) com esse debate. Para mim e para meus colegas era fundamental compreender essas questões, debatê-las e ter uma posição sobre elas. Depois, com a “queda do muro” e o fim da União Soviética tudo mudou. E eu também mudei. A Rússia teve papel fundamental no século vinte, com sua experiência concreta de socialismo, para alimentar, e quiçá, elucidar este debate teórico.
Voltando aos czares russos, é importante sabê-los para compreender também a história deste imenso país que teve ao longo dos séculos um papel determinante na história e na configuração geopolítica do continente europeu e mesmo do mundo.
É preciso lembrar que a Rússia por si só é um continente; é o maior país do mundo e qualquer movimento seu, ou mesmo a sua inércia, tem um impacto planetário. Tem sido assim nos últimos mil anos. Basta lembrar, por exemplo, a conversão dos russos ao cristianismo bizantino (que depois propiciou a Moscou reivindicar o papel de terceira Roma). E mais recentemente, no século XIX, a invasão napoleônica. A derrota de Napoleão, de fato, se deu na Rússia, assim como a derrota de Hitler, no século XX, deu-se também na sua aventura russa.
Por fim, a Revolução Socialista de 1917 condicionou a história do planeta no século XX. Basta lembrar, por exemplo, que em 1922 (apenas cinco anos após a Revolução Russa) se criou no Brasil o Partido Comunista, e até hoje o debate Socialismo X Capitalismo, Estado X Mercado, monopoliza as discussões políticas no país.
Mas voltando novamente aos czares, a Rússia desde seu nascimento teve duas grandes dinastias, os Rijurikovich e os Romanov.
A história do Estado russo inicia quando os moradores da cidade de Novgorod chamam o príncipe Riurik, de uma tribo do Báltico, para governa-los. Logo o poder de Riurik se estende a Kiev (hoje capital da Ucrânia) garantindo a rota fluvial e comercial do Dniepr que unia os povos do Báltico (Vikings) ao Mar Negro e a Bisâncio, então um grande centro cultural e comercial que aproximava a Ásia da Europa. Bisâncio foi a herdeira das grandes culturas grega e romana da antiguidade. Assim nasce a chamada “Rus de Kiev”.
A partir daí, ao longo dos séculos, e sob a condução dos descendentes de Riurik a Rússia se expandiu, principalmente para o leste. Venceu seus inimigos, expulsou invasores (germanos, polacos, suecos, turcos, mongóis, entre outros) e criou novas cidades.
Em busca da segurança do reino (dos principados) a Rússia vai mudando seu eixo de centralidade. Kiev estava muito exposta a invasores e aventureiros. Então o príncipe Vladimir II transfere a capital para uma região mais ao leste, próximo ao rio Moscou e a rota comercial do rio Volga.
Em 1230 o país é invadido e ocupado pelos mongóis (chamados tártaros). Essa ocupação durou mais de duzentos anos e atrasou o desenvolvimento da Rússia. Ao mesmo tempo os principados russos foram se fortalecendo e se unindo em torno do principado de Moscou.
Ivan III assume em 1462 (dando início a primeira dinastia de czares, os Rurikovich) e teve um papel determinante na consolidação da unidade russa, seja por alianças com outros principados, seja por conquista, seja por resistência ao domínio tártaro. É chamado “Gran Príncipe de Moscou e de toda a Rússia” pela primeira vez. É considerado, portanto, o primeiro czar de uma Rússia grande, forte e unificada.
Na continuidade deste texto analisaremos a trajetória de alguns dos mais importantes czares da Rússia (príncipe Vladimir, príncipe Alexandre Névski, Ivan III, Ivan IV, Pedro I, Isabel, Catarina II, Nicoulau, entre outros), e o papel desempenhado por eles na configuração histórico, político, cultural e social deste imenso país.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

São Petersburgo - A cidade da Rússia





São Petersburgo – a cidade da Rússia

Julio Pujol

Petersburgo nasceu da visão e ousadia de um Czar, Pedro, chamado “O Grande”, em 1703. Foi uma cidade planejada e construída como a nossa Brasília; a diferença é que foi há uns 300 anos atrás.
Erguida num pantanal às margens do rio Neva, Petersburgo (ou São Petersburgo) simbolizava para Pedro a porta de entrada (ou janela) da Rússia para o Ocidente.
Com a visão de que a Rússia (quase feudal) precisava se modernizar aproximando-se da Europa, Pedro concebeu a cidade com tudo o que de melhor havia em seu tempo. Luxuosos palácios, arquitetura neoclássica, planejamento urbano (que funciona bem até hoje), teatros, canais, parques... Tradição e modernidade são marcas de Petersburgo.
Pedro chama suas principais ruas de “Perspectivas” (Prospekt) e não de avenidas. É assim com a lendária Nevski Prospekt ou Perspectiva Nevski. Perspectiva, de sua etimologia grega: “ver ao longe”. De fato a Nevski Propekt, próxima às margens do rio Neva, possui mais de cinco quilômetros em linha reta permitindo, realmente, ver ao longe.
Criada no inicio do século XVIII como um sonho, uma visão, Petersburgo passou a ser a capital do imenso Império Russo, que naquela época já ia do Cazaquistão ao Báltico, de Vladivostok à Ucrânia. São Petersburgo nasceu para ser a síntese deste Império.
Pela sua inicial artificialidade e exotismo (uma cidade de palácios no meio do nada) Petersburgo acabou construindo um mito sobre si mesma. Um mito talvez forjado sob os milhares de russos mortos em sua construção. (Imagine-se construir uma cidade de palácios no meio de pântanos gelados há mais de trezentos anos atrás).
 Dificílimo falar de Petersburgo em poucas linhas. Uma cidade que fazendo jus ao seu mito, foi palco de grandes e trágicos acontecimentos, principalmente no século XX. Para além das intempéries climáticas como enchentes e nevascas, Petersburgo sofreu muito com a intervenção política.
Em 1917 foi palco da Revolução comandada por Lênin que ocupou o então chamado Palácio de Inverno (hoje Museu Hermitage). Uma revolução que foi trágica para a cidade que já abrigava a melhor indústria russa, a vida intelectual, os poetas, os teatros e as óperas; os bancos e os jornais, as grandes orquestras e as editoras.
Então vieram as expropriações, a censura, as perseguições à intelectualidade e a guerra civil. Na década de 1930/40 Stalin dá mais um golpe à cidade, devastando com sua intelectualidade.
Em 1941 Petersburgo (então chamada Leningrado) é cercada e bombardeada pelos nazistas durante novecentos dias. Três quartos de sua população desaparece pela fome, pelo frio e pelos bombardeios. Mas Leningrado resistiu.
Com o fim da União Soviética (ou do socialismo na Rússia), na década de noventa, Leningrado realiza um plebiscito e decide retomar seu antigo nome, São Petersburgo.
Com a abertura (a Perestroika e a Glanost) São Petersburgo começa a retomar o seu papel de centro cultural russo-europeu.
Hoje Petersburgo é uma cidade aberta, dinâmica, lotada de turistas de todo o mundo. As “noites brancas” são um atrativo a mais do verão petersburguense.

UMA HISTÓRIA CULTURAL
Se para a Rússia Moscou é força, economia, política, São Petersburgo é arte. Arte que transborda em cada esquina, em cada prédio, em cada canal, em cada ponte.
Moscou tem hoje onze milhões de habitantes e concentra o poder político (no Kremlin) de todo o país. São Petersburgo com quase cinco milhões, concentra grande parte do turismo; um turismo essencialmente cultural. Seus teatros, bares, restaurantes estão sempre lotados. Os passeios de barco pelos canais e pelo Neva são imperdíveis. Os palácios como Peterhof são estupendos. Na realidade apenas passear pelas ruas e observar a arquitetura, os monumentos, e as grandes perspectivas já vale a viajem.
O livro “São Petersburgo, uma história cultural” do músico, crítico cultural e escritor petersburguense, Salomon Volkov (Editora Record, 1997) mostra-nos a Cidade de Pedro através de uma perspectiva histórico- cultural, situando-a ao lado das grandes capitais culturais do mundo como Paris, Roma e Barcelona.  É uma preciosidade. (nem sempre “preciosidade” refere-se a algo raro ou antigo. Às vezes o termo refere-se ao conteúdo de uma obra. Esse é o caso).
Com essa obra Volkov faz, no campo cultural, para a Rússia, o que anteriormente já havia feito Soljenitsin no campo político com o “Arquipélago Gulag”. Uma obra definitiva. Um clássico. (para quem se interessa pelas coisas da Rússia essas duas publicações são imprescindíveis).
Sem dúvida “Uma história Cultural” é um livro mais “útil” aos profissionais e amantes da música, do balet, da poesia, da literatura e da história. Porém aos contemporâneos de seu tempo, interessados no humano e suas manifestações, é um livro quase imperdível.
Quem não está disposto e aberto não deve aventurar-se por suas mais de seiscentas páginas. Mas, aos de alma e curiosidade aberta é uma bela aventura, um belo passeio pela cultura desta metrópole, ao mesmo tempo regional e cosmopolita. Um tanto exótica (no sentido de estranha), porém, como quase tudo que os russos fazem, grande e única. O livro é uma delícia.
Volkov pega o “fio” do mito petersburguense e descortina a sua modificação e evolução através da história e das manifestações culturais. É preciso lembrar que Petersburgo é a cidade onde brilharam Glinka e os “Cinco Grandes” na música (Korsakov, Mussorgski, Cui, Borodin e Balakirev), também Tchaikoviski, Rachmaninov, Shostakovich e tantos outros.
Pushikin, Gogol, Tchekov e Dostoiévski (assim como tantos outros também...) tiveram Petersburgo como cenário de suas obras.
É a cidade dos poetas Block e Akhmatova, e também de tantos outros...
No balet, tem e teve os melhores do mundo (bailarinos, coreógrafos, produtores) Balanchine, Nijinski, Petipa, Barishinikov e também tantos e tantos... Claro, é sede do Mariinski e do Kírov.
Impossível falar de Petersburgo nestas poucas linhas. Teria que citar a excelência acadêmica, o complexo militar marítimo, falar do Hermitage, da Fortaleza de Pedro e Paulo, das Igrejas, da livraria Dom Kiniga, da Nevski, do Jardim de Verão, do Teatro Alexandrinski e do povo, claro; do jeito petersburguense de ser.
Uma experiência: ao visitar Petersburgo não espere uma experiência comum, normal. A cidade se impõe sobre você desde o primeiro momento. Acostume-se a andar em uma galeria a céu aberto. Cada prédio, cada esquina, cada canal, cada ponte é uma obra de arte. Em alguns momentos você pensa: “eu só queria uma cidade normal”; é muita arte, muita beleza, muita grandiosidade. E o Neva está sempre ali, calmo e silencioso, como que guardião do espírito da cidade.









quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Crime e Castigo – um livro difícil.



Crime e Castigo – um livro difícil. (Devo escrever sobre isso)
Julio Pujol

Dostoiévski é difícil. E é.
Algumas vezes a grandeza está na simplicidade, noutras na complexidade. Em Dostoiévski vale o segundo caso.
Quando pela primeira vez uma colega falou-me do livro “Crime e Castigo” pensei que deveria lê-lo. Sabe quando a gente fica com aquela sensação de que “todo mundo já leu esse livro, menos eu”? Foi mais ou menos isso.
Ela me disse que se tratava de um livro que contava a história de um rapaz que cometeu um crime (matou uma velha agiota) e depois ficou angustiado temendo ser descoberto e ao mesmo tempo querendo se entregar. Era mais ou menos o caso do crime perfeito. Fiquei curioso. Achei uma boa história.
Tempos depois, quando fui ler o livro não vi nada disso. Tudo era uma outra coisa.
O primeiro Dostoiévski que li foi “Memórias da Casa dos Mortos”; um relato dos anos em que o autor passou na Sibéria, em uma prisão czarista, na realidade um exílio interno. Um livro concreto, falando de fatos e personagens concretos, autobiográfico. Já prenunciava um olhar profundo sobre a vida e seus seres.
Passados mais de vinte anos dessa leitura, ainda são inesquecíveis para mim as cenas “do banho” (na Rússia ainda existem os banhos públicos, coletivos, até hoje) e a cena “do teatro”. Geniais.
Para quem se interessa pela cultura Russa, ou para quem gosta de um bom livro, ou para quem se interessa pelo tema das “instituições totais” vale a pena a leitura. Ou mesmo para poder comparar as prisões czaristas (onde estiveram Lênin, Stalin, Trotski) com os relatos de Soljenitsin sobre as prisões e os exílios do tempo do socialismo, infinitamente mais cruéis.
Mas voltando ao nosso “Crime e Castigo”, é fato que existe um jovem estudante pobre, Raskólnikov, que tem uma mãe e uma irmã, Dúnia. Que mata uma velha agiota e sua irmã Lisaveta para roubá-las. Que esse jovem tem um amigo e colega, Razúmikin. Que há também a figura do investigador Porfiri, que parece saber, e sabe, que Raskólnikov cometeu o crime. E tem também Sônia, uma moça de enorme sensibilidade que se prostitui para alimentar a família miserável e é a única que compreende Raskólnicov.
Dito isso, o autor nos abre um mundo; o laboratório da mente humana, de uma mente angustiada, que é marca dos escritos de Dostoiévski. Uma mente (um homem) pressionada pelo seu tempo. Um tempo de transição, a segunda metade do século XIX, quando o mundo se urbanizava, a indústria se consolidava, os movimentos sociais nasciam, a comunicação se ampliava entre os homens e seus saberes. (Fiodor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 1821 e morreu em São Petersburgo em 1881).
É como se fosse um mundo que se preparava para ser algo; Para ser mundo.
A sensibilidade do gênio (assim como a dos poetas) centrou seu olhar não nas máquinas, nas ideologias e no progresso, mas no interno do homem, na sua mente, no seu coração, nos seus valores, nos seus medos, nas suas angústias e nas suas fés.
E a cidade em que Dostoiévski decidiu viver grande parte da sua vida, São Petersburgo, era o cenário perfeito. Uma cidade construída de modo planejado (quem sabe artificial), numa região inóspita, pantanosa, gelada em grande parte do ano, sombria, com gente que foi se enraizando aos poucos, construindo uma identidade urbana meio europeia, num país ainda meio arcaico. (hoje São Petersburgo é uma outra coisa). Uma cidade amada e odiada por Dostoiévski. E o autor cai no meio dela com seus personagens, seja nos dias sombrios, seja nas noites brancas.
Em “Crime e Castigo”, paralelo ao enredo, que de fato é simples, o autor vai nos levando para o íntimo dos personagens, mas sem analisá-los, apenas expondo suas reações, suas reflexões, seus medos e seus valores. Nos faz ficar pensando, e no entanto não nos dá nenhuma resposta. Às vezes você pensa: “que chato esse Raskolnikóv, um infantil”; outras vezes você percebe uma reflexão profunda, existencial. No fundo, para mim, é indecifrável. Talvez somente Sonia o entenda.
Também para suas reflexões filosóficas e existências (tão facilitadas pela atmosfera russa do século XIX) o autor parece não nos dar respostas, embora em vários momentos seja bastante assertivo. Mas sua assertividade, convincente, ao término nos deixa em dúvida se ele realmente afirma algo e acredita, ou se está nos dizendo exatamente o contrário. E todas essas reflexões e mergulhos no íntimo humano, feitos com maestria, são anteriores a Freud e a sua psicanálise. E óbvio, com outra linguagem.
O que num primeiro momento pode parecer uma reflexão sobre os valores morais e existenciais do homem russo, sua angústia frente à vida, descortinados com imensa sensibilidade, na realidade é um pouco da consciência do mundo, portanto universal, não russa, exposta.
E todos estes elementos estão também, enfadonhamente, em outras obras como “Noites Brancas”, “Notas do Subsolo”, “O Idiota” e finalmente em “Irmãos Karamázov”, um livro definitivo.
Ler Dostoiévski é entrar no laboratório do gênio. Sempre um desafio.

“Por que, diabo, me preocupo eu desta maneira e sofro todas estas inquietações por causa de uma bagatela?, pensou, sorrindo estranhamente. Hum! Sim, é isso, está tudo ao alcance do homem e tudo lhe vem parar às mãos, simplesmente o medo... Isto é um axioma... É curioso: de que será que as pessoas tem mais medo?...”

“Os indivíduos se dividem, segundo a lei da natureza, em duas categorias: a inferior (a dos vulgares), isto é, se me permite a expressão, a material, que unicamente é proveitosa para a procriação da espécie, e a dos indivíduos que possuem o dom ou a inteligência para dizerem no seu meio uma palavra nova. É claro que as subdivisões são infinitas...”

“De maneira geral, indivíduos com ideias novas, inclusivamente de algum modo capazes de dizerem algo de novo, nascem pouquíssimos, são de uma escassez verdadeiramente estranha.”

“Então adivinhei Sônia – continuou com entusiasmo – que o poder apenas se entrega a quem se atreve a inclinar-se e a apanhá-lo. Só é preciso uma coisa, só uma coisa: atrevimento para o fazer”.

“Será difícil encontrar outra terra onde atuem sobre a alma humana influxos tão tenebrosos, tão intensos e tão estranhos como em Petersburgo. Talvez seja a ação do clima! Mas, como é o centro administrativo do país, o seu caráter deve refletir-se na Rússia inteira.”

“Os russos, de maneira geral, são gente de vistas amplas, como a sua terra, e muito propensos para o fantástico, para o desordenado; mas infelizmente, trata-se de uma amplitude sem generalidade especial.”

“Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, completamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa... mas a nossa presente narrativa termina aqui.”