terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

OS CZARES RUSSOS (II)


                       
Julio Pujol

A Rússia antes da Rússia.

Sendo a Rússia um país milenar e o maior território do planeta é muito difícil traçar uma história linear e que contemple a diversidade de povos espalhados por sua imensidão territorial ao longo do tempo.
Convencionou-se então a abordar a história deste país a partir do sul, da zona das estepes, da região de Kiev, da proximidade com a Europa, do Cáucaso, da Criméia e do Dniepr.
Diz-se que os primeiros povos a habitarem os campos russos foram os citas (da Cítia), no século IV AC, um povo formado por iranianos e chineses, exímios cavaleiros, comerciantes e artesãos que, devido às guerras e dispersões acabaram desaparecendo enquanto povo.
A vasta região então, como caminho do oriente ao ocidente (um dos caminhos da famosa “Rota da Seda” passava pelo que hoje é o sul da Rússia) tornou-se um espaço de passagem, de guerras, de disputas e conquistas entre povos como os Pechenegues, os Kasares, Eslavos, Búlgaros, etc.
No século V, da era cristã, é fundada às margens do rio Dniepr a cidade de Kiev (hoje capital da Ucrânia) que quase quinhentos anos depois se tornaria a primeira capital do que, ainda depois, seria o Estado Russo.
Além de região de ligação entre o oriente (China, Índia) com o Ocidente Europeu, essa região também foi rota Norte-Sul (via rio Dniepr) servindo de passagem aos guerreiros e comerciantes Vikings (suecos, escandinavos) rumo ao rico e desenvolvido Império Bizantino, de capital Bizâncio ou Constantinopla, atual Istambul na Turquia. Esses duas rotas marcaram a constituição inicial da futura Rússia.

                                      (Os Vikings)

Ao norte, próximo a atual São Petersburgo, também se constituíram cidades como Novgorod e Pskov que, assim como Kiev, serviam de entreposto e lugar de abastecimento dos navegantes Nórdicos (Vikings). Eles dominavam o norte europeu e que se deslocavam via o Mar Báltico, o rio Neva e o Dniepr ao sul, até Constantinopla.
Quando em busca de proteção e fortalecimento a cidade de Novgorod busca o príncipe nórdico Riurik em 862 para ser seu governante e em seguida, a partir dele, une-se a Kiev em 882, nasce a primeira Rússia, a chamada “Rus de Kiev” que em poucos séculos se tornará o maior país do mundo.

        (Príncipe Riurik)

Neste período (séculos IX e X) a Rússia deixa a sua pré-história de tribos e clãs, de fronteiras abertas e frágeis e passa a se constituir em um Estado unificado, que busca se consolidar e expandir.
Esse é um período em que também o restante da Europa mergulhava num momento difícil, tentando se recompor do fim do Império Romano. É tempo de Carlos Magno na França e da tentativa de retomada do esplendor da antiga Roma.
A Europa vive o período do Feudalismo e da Idade Média em que o conceito de Estado Nacional não significava muito. Os reinos e principados imperavam, bem como a Igreja Católica buscava se fortalecer e se consolidar em seus mosteiros.

A “Rus de Kiev”:

        A Rus de Kiev nasce com os olhos voltados para o Império Bizantino que, neste período do século IX vivia a sua Renascença. Constantinopla era um grande centro comercial, religioso e cultural, herdeiro das grandes culturas grega e romana da antiguidade. Vale dizer que o Império Bizantino era considerado a “Segunda Roma”. Quando o imperador Teodósio dividiu o império em Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, e Império Romano do Oriente, definiu a capital do segundo como Bizâncio.

Com a queda do Império Romano em 476, em função das invasões bárbaras, Bizâncio se torna a única sede do Império que perduraria ainda, a partir daí, por mais mil anos, até 1453.
Na sua consolidação enquanto Estado a Rus vai buscar no Império Bizantino as suas referências. Assim, são enviados sábios a Constantinopla para estudarem e criarem um alfabeto para a Rus. Os bizantinos falavam a língua grega. Dessa maneira nasce o alfabeto Cirílico (dos sábios Cirilo e Metódio) usado até os dias de hoje pelos russos e alguns outros povos.
Ainda nos séculos IX e X a Rus de Kiev e Constantinopla assinam seu primeiro tratado de comércio e relações. E a Rus de Kiev para ser respeitada no cenário internacional procurou se filiar a uma religião reconhecida, superando o paganismo e as crendices. E é nos bizantinos que a Rus busca a sua religião.


O príncipe Vladimir e a conversão da Rússia


No ano 988-89 o príncipe Vladimir, descendente de Riurik, converte-se ao cristianismo ortodoxo de Bizâncio, levando assim toda a “Rus” à conversão. Mas a intenção de Vladimir não era apenas converter-se, e sim incorporar para a “Rus” os avançados aspectos da cultura bizantina. E assim foi feito.
Do que conhecemos da Rússia hoje, das igrejas aos ícones, da arquitetura aos mosaicos, da língua à pintura, é inegável a herança e influência Greco-bizantina.
Os primeiros príncipes Riurik, Oleg, Igor, Sviatoslav, Yaropolk e Vladimir constroem as bases da unidade do Estado Russo que será consolidado por seus descendentes. Neste período, em torno do ano 1000 D.C., ainda não se falava em Rússia e em Czares. Mas os fundamentos da Grande Rússia já estão presentes. Depois disso, preservar e ampliar as fronteiras até a consolidação de um grande império levou ainda mais de 500 anos.
O que tínhamos no ano 1000 eram cidades (talvez não se possa comparar muito com as clássicas cidades-estado gregas) que possuíam autonomia administrativa, eram comandadas por príncipes, tinham territórios mais ou menos definidos, Assembleias Populares (as Veches) para decisões importantes, muralhas de proteção e, como nos romanos, as forças militares ficavam fora dessas muralhas. Essas cidades estabeleciam alianças entre si para se protegerem de invasores.
Também podiam chamar um comandante de fora para lhes governar (e proteger) em períodos de ameaças externas, assim como também os romanos nomeavam um ditador em tempos de guerra.
Para concluir, a Rússia, após este período de conformação inicial, ainda passaria por muitas dificuldades, divisões, guerras, invasões, até que surja o seu primeiro Czar, em torno do ano 1500.
Isso veremos adiante.

                                                    NOVGOROD                                       

                                            






quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

OS CZARES RUSSOS (GLI ZAR RUSSI) DE RURIK A ROMANOV (I)

OS CZARES RUSSOS (GLI ZAR RUSSI)
 DE RURIK A ROMANOV  (I)






Julio Pujol

                Para um historiador de formação marxista, saber a história e a cronologia dos governantes (príncipes e czares) pouco ou nada ajudaria na compreensão do processo histórico do imenso país, a Rússia.
Por outro lado, para um leigo (quanto à metodologia histórica) talvez explicasse tudo. Ele se sentiria um conhecedor seguro da história ao saber os nomes , as datas e as particularidades de personalidade (afinal Pedro I era um visionário ou um rústico bruto? Ivan IV era mesmo terrível? Quantos amantes teve Catarina?)
O papel do indivíduo na história é um debate antigo entre os historiadores, particularmente os marxistas. Esse enfrentamento teórico produziu incontáveis textos, livros e teses publicadas por décadas. (Não é propósito aqui seguir adiante).
Resumindo, para o marxismo dialético, o motor da história (que a faz avançar) é a Luta de Classes. E a mesma história evolui segundo os referenciais econômicos, mais precisamente aos “Modos de Produção”, comunismo primitivo, escravismo, feudalismo, capitalismo e por fim, as sociedades inexoravelmente chegariam ao comunismo passando, claro, pela etapa do socialismo.
Como se vê, não há aqui nenhuma referência ao indivíduo; a história andaria por si, por suas próprias leis (científicas). O nó do debate era o seguinte: como explicar então, por exemplo, o papel de Lênin e Napoleão na história?
Confesso que me diverti muito nos anos de Faculdade de História (década de 90) com esse debate. Para mim e para meus colegas era fundamental compreender essas questões, debatê-las e ter uma posição sobre elas. Depois, com a “queda do muro” e o fim da União Soviética tudo mudou. E eu também mudei. A Rússia teve papel fundamental no século vinte, com sua experiência concreta de socialismo, para alimentar, e quiçá, elucidar este debate teórico.
Voltando aos czares russos, é importante sabê-los para compreender também a história deste imenso país que teve ao longo dos séculos um papel determinante na história e na configuração geopolítica do continente europeu e mesmo do mundo.
É preciso lembrar que a Rússia por si só é um continente; é o maior país do mundo e qualquer movimento seu, ou mesmo a sua inércia, tem um impacto planetário. Tem sido assim nos últimos mil anos. Basta lembrar, por exemplo, a conversão dos russos ao cristianismo bizantino (que depois propiciou a Moscou reivindicar o papel de terceira Roma). E mais recentemente, no século XIX, a invasão napoleônica. A derrota de Napoleão, de fato, se deu na Rússia, assim como a derrota de Hitler, no século XX, deu-se também na sua aventura russa.
Por fim, a Revolução Socialista de 1917 condicionou a história do planeta no século XX. Basta lembrar, por exemplo, que em 1922 (apenas cinco anos após a Revolução Russa) se criou no Brasil o Partido Comunista, e até hoje o debate Socialismo X Capitalismo, Estado X Mercado, monopoliza as discussões políticas no país.
Mas voltando novamente aos czares, a Rússia desde seu nascimento teve duas grandes dinastias, os Rijurikovich e os Romanov.
A história do Estado russo inicia quando os moradores da cidade de Novgorod chamam o príncipe Riurik, de uma tribo do Báltico, para governa-los. Logo o poder de Riurik se estende a Kiev (hoje capital da Ucrânia) garantindo a rota fluvial e comercial do Dniepr que unia os povos do Báltico (Vikings) ao Mar Negro e a Bisâncio, então um grande centro cultural e comercial que aproximava a Ásia da Europa. Bisâncio foi a herdeira das grandes culturas grega e romana da antiguidade. Assim nasce a chamada “Rus de Kiev”.
A partir daí, ao longo dos séculos, e sob a condução dos descendentes de Riurik a Rússia se expandiu, principalmente para o leste. Venceu seus inimigos, expulsou invasores (germanos, polacos, suecos, turcos, mongóis, entre outros) e criou novas cidades.
Em busca da segurança do reino (dos principados) a Rússia vai mudando seu eixo de centralidade. Kiev estava muito exposta a invasores e aventureiros. Então o príncipe Vladimir II transfere a capital para uma região mais ao leste, próximo ao rio Moscou e a rota comercial do rio Volga.
Em 1230 o país é invadido e ocupado pelos mongóis (chamados tártaros). Essa ocupação durou mais de duzentos anos e atrasou o desenvolvimento da Rússia. Ao mesmo tempo os principados russos foram se fortalecendo e se unindo em torno do principado de Moscou.
Ivan III assume em 1462 (dando início a primeira dinastia de czares, os Rurikovich) e teve um papel determinante na consolidação da unidade russa, seja por alianças com outros principados, seja por conquista, seja por resistência ao domínio tártaro. É chamado “Gran Príncipe de Moscou e de toda a Rússia” pela primeira vez. É considerado, portanto, o primeiro czar de uma Rússia grande, forte e unificada.
Na continuidade deste texto analisaremos a trajetória de alguns dos mais importantes czares da Rússia (príncipe Vladimir, príncipe Alexandre Névski, Ivan III, Ivan IV, Pedro I, Isabel, Catarina II, Nicoulau, entre outros), e o papel desempenhado por eles na configuração histórico, político, cultural e social deste imenso país.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

São Petersburgo - A cidade da Rússia





São Petersburgo – a cidade da Rússia

Julio Pujol

Petersburgo nasceu da visão e ousadia de um Czar, Pedro, chamado “O Grande”, em 1703. Foi uma cidade planejada e construída como a nossa Brasília; a diferença é que foi há uns 300 anos atrás.
Erguida num pantanal às margens do rio Neva, Petersburgo (ou São Petersburgo) simbolizava para Pedro a porta de entrada (ou janela) da Rússia para o Ocidente.
Com a visão de que a Rússia (quase feudal) precisava se modernizar aproximando-se da Europa, Pedro concebeu a cidade com tudo o que de melhor havia em seu tempo. Luxuosos palácios, arquitetura neoclássica, planejamento urbano (que funciona bem até hoje), teatros, canais, parques... Tradição e modernidade são marcas de Petersburgo.
Pedro chama suas principais ruas de “Perspectivas” (Prospekt) e não de avenidas. É assim com a lendária Nevski Prospekt ou Perspectiva Nevski. Perspectiva, de sua etimologia grega: “ver ao longe”. De fato a Nevski Propekt, próxima às margens do rio Neva, possui mais de cinco quilômetros em linha reta permitindo, realmente, ver ao longe.
Criada no inicio do século XVIII como um sonho, uma visão, Petersburgo passou a ser a capital do imenso Império Russo, que naquela época já ia do Cazaquistão ao Báltico, de Vladivostok à Ucrânia. São Petersburgo nasceu para ser a síntese deste Império.
Pela sua inicial artificialidade e exotismo (uma cidade de palácios no meio do nada) Petersburgo acabou construindo um mito sobre si mesma. Um mito talvez forjado sob os milhares de russos mortos em sua construção. (Imagine-se construir uma cidade de palácios no meio de pântanos gelados há mais de trezentos anos atrás).
 Dificílimo falar de Petersburgo em poucas linhas. Uma cidade que fazendo jus ao seu mito, foi palco de grandes e trágicos acontecimentos, principalmente no século XX. Para além das intempéries climáticas como enchentes e nevascas, Petersburgo sofreu muito com a intervenção política.
Em 1917 foi palco da Revolução comandada por Lênin que ocupou o então chamado Palácio de Inverno (hoje Museu Hermitage). Uma revolução que foi trágica para a cidade que já abrigava a melhor indústria russa, a vida intelectual, os poetas, os teatros e as óperas; os bancos e os jornais, as grandes orquestras e as editoras.
Então vieram as expropriações, a censura, as perseguições à intelectualidade e a guerra civil. Na década de 1930/40 Stalin dá mais um golpe à cidade, devastando com sua intelectualidade.
Em 1941 Petersburgo (então chamada Leningrado) é cercada e bombardeada pelos nazistas durante novecentos dias. Três quartos de sua população desaparece pela fome, pelo frio e pelos bombardeios. Mas Leningrado resistiu.
Com o fim da União Soviética (ou do socialismo na Rússia), na década de noventa, Leningrado realiza um plebiscito e decide retomar seu antigo nome, São Petersburgo.
Com a abertura (a Perestroika e a Glanost) São Petersburgo começa a retomar o seu papel de centro cultural russo-europeu.
Hoje Petersburgo é uma cidade aberta, dinâmica, lotada de turistas de todo o mundo. As “noites brancas” são um atrativo a mais do verão petersburguense.

UMA HISTÓRIA CULTURAL
Se para a Rússia Moscou é força, economia, política, São Petersburgo é arte. Arte que transborda em cada esquina, em cada prédio, em cada canal, em cada ponte.
Moscou tem hoje onze milhões de habitantes e concentra o poder político (no Kremlin) de todo o país. São Petersburgo com quase cinco milhões, concentra grande parte do turismo; um turismo essencialmente cultural. Seus teatros, bares, restaurantes estão sempre lotados. Os passeios de barco pelos canais e pelo Neva são imperdíveis. Os palácios como Peterhof são estupendos. Na realidade apenas passear pelas ruas e observar a arquitetura, os monumentos, e as grandes perspectivas já vale a viajem.
O livro “São Petersburgo, uma história cultural” do músico, crítico cultural e escritor petersburguense, Salomon Volkov (Editora Record, 1997) mostra-nos a Cidade de Pedro através de uma perspectiva histórico- cultural, situando-a ao lado das grandes capitais culturais do mundo como Paris, Roma e Barcelona.  É uma preciosidade. (nem sempre “preciosidade” refere-se a algo raro ou antigo. Às vezes o termo refere-se ao conteúdo de uma obra. Esse é o caso).
Com essa obra Volkov faz, no campo cultural, para a Rússia, o que anteriormente já havia feito Soljenitsin no campo político com o “Arquipélago Gulag”. Uma obra definitiva. Um clássico. (para quem se interessa pelas coisas da Rússia essas duas publicações são imprescindíveis).
Sem dúvida “Uma história Cultural” é um livro mais “útil” aos profissionais e amantes da música, do balet, da poesia, da literatura e da história. Porém aos contemporâneos de seu tempo, interessados no humano e suas manifestações, é um livro quase imperdível.
Quem não está disposto e aberto não deve aventurar-se por suas mais de seiscentas páginas. Mas, aos de alma e curiosidade aberta é uma bela aventura, um belo passeio pela cultura desta metrópole, ao mesmo tempo regional e cosmopolita. Um tanto exótica (no sentido de estranha), porém, como quase tudo que os russos fazem, grande e única. O livro é uma delícia.
Volkov pega o “fio” do mito petersburguense e descortina a sua modificação e evolução através da história e das manifestações culturais. É preciso lembrar que Petersburgo é a cidade onde brilharam Glinka e os “Cinco Grandes” na música (Korsakov, Mussorgski, Cui, Borodin e Balakirev), também Tchaikoviski, Rachmaninov, Shostakovich e tantos outros.
Pushikin, Gogol, Tchekov e Dostoiévski (assim como tantos outros também...) tiveram Petersburgo como cenário de suas obras.
É a cidade dos poetas Block e Akhmatova, e também de tantos outros...
No balet, tem e teve os melhores do mundo (bailarinos, coreógrafos, produtores) Balanchine, Nijinski, Petipa, Barishinikov e também tantos e tantos... Claro, é sede do Mariinski e do Kírov.
Impossível falar de Petersburgo nestas poucas linhas. Teria que citar a excelência acadêmica, o complexo militar marítimo, falar do Hermitage, da Fortaleza de Pedro e Paulo, das Igrejas, da livraria Dom Kiniga, da Nevski, do Jardim de Verão, do Teatro Alexandrinski e do povo, claro; do jeito petersburguense de ser.
Uma experiência: ao visitar Petersburgo não espere uma experiência comum, normal. A cidade se impõe sobre você desde o primeiro momento. Acostume-se a andar em uma galeria a céu aberto. Cada prédio, cada esquina, cada canal, cada ponte é uma obra de arte. Em alguns momentos você pensa: “eu só queria uma cidade normal”; é muita arte, muita beleza, muita grandiosidade. E o Neva está sempre ali, calmo e silencioso, como que guardião do espírito da cidade.









quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Crime e Castigo – um livro difícil.



Crime e Castigo – um livro difícil. (Devo escrever sobre isso)
Julio Pujol

Dostoiévski é difícil. E é.
Algumas vezes a grandeza está na simplicidade, noutras na complexidade. Em Dostoiévski vale o segundo caso.
Quando pela primeira vez uma colega falou-me do livro “Crime e Castigo” pensei que deveria lê-lo. Sabe quando a gente fica com aquela sensação de que “todo mundo já leu esse livro, menos eu”? Foi mais ou menos isso.
Ela me disse que se tratava de um livro que contava a história de um rapaz que cometeu um crime (matou uma velha agiota) e depois ficou angustiado temendo ser descoberto e ao mesmo tempo querendo se entregar. Era mais ou menos o caso do crime perfeito. Fiquei curioso. Achei uma boa história.
Tempos depois, quando fui ler o livro não vi nada disso. Tudo era uma outra coisa.
O primeiro Dostoiévski que li foi “Memórias da Casa dos Mortos”; um relato dos anos em que o autor passou na Sibéria, em uma prisão czarista, na realidade um exílio interno. Um livro concreto, falando de fatos e personagens concretos, autobiográfico. Já prenunciava um olhar profundo sobre a vida e seus seres.
Passados mais de vinte anos dessa leitura, ainda são inesquecíveis para mim as cenas “do banho” (na Rússia ainda existem os banhos públicos, coletivos, até hoje) e a cena “do teatro”. Geniais.
Para quem se interessa pela cultura Russa, ou para quem gosta de um bom livro, ou para quem se interessa pelo tema das “instituições totais” vale a pena a leitura. Ou mesmo para poder comparar as prisões czaristas (onde estiveram Lênin, Stalin, Trotski) com os relatos de Soljenitsin sobre as prisões e os exílios do tempo do socialismo, infinitamente mais cruéis.
Mas voltando ao nosso “Crime e Castigo”, é fato que existe um jovem estudante pobre, Raskólnikov, que tem uma mãe e uma irmã, Dúnia. Que mata uma velha agiota e sua irmã Lisaveta para roubá-las. Que esse jovem tem um amigo e colega, Razúmikin. Que há também a figura do investigador Porfiri, que parece saber, e sabe, que Raskólnikov cometeu o crime. E tem também Sônia, uma moça de enorme sensibilidade que se prostitui para alimentar a família miserável e é a única que compreende Raskólnicov.
Dito isso, o autor nos abre um mundo; o laboratório da mente humana, de uma mente angustiada, que é marca dos escritos de Dostoiévski. Uma mente (um homem) pressionada pelo seu tempo. Um tempo de transição, a segunda metade do século XIX, quando o mundo se urbanizava, a indústria se consolidava, os movimentos sociais nasciam, a comunicação se ampliava entre os homens e seus saberes. (Fiodor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 1821 e morreu em São Petersburgo em 1881).
É como se fosse um mundo que se preparava para ser algo; Para ser mundo.
A sensibilidade do gênio (assim como a dos poetas) centrou seu olhar não nas máquinas, nas ideologias e no progresso, mas no interno do homem, na sua mente, no seu coração, nos seus valores, nos seus medos, nas suas angústias e nas suas fés.
E a cidade em que Dostoiévski decidiu viver grande parte da sua vida, São Petersburgo, era o cenário perfeito. Uma cidade construída de modo planejado (quem sabe artificial), numa região inóspita, pantanosa, gelada em grande parte do ano, sombria, com gente que foi se enraizando aos poucos, construindo uma identidade urbana meio europeia, num país ainda meio arcaico. (hoje São Petersburgo é uma outra coisa). Uma cidade amada e odiada por Dostoiévski. E o autor cai no meio dela com seus personagens, seja nos dias sombrios, seja nas noites brancas.
Em “Crime e Castigo”, paralelo ao enredo, que de fato é simples, o autor vai nos levando para o íntimo dos personagens, mas sem analisá-los, apenas expondo suas reações, suas reflexões, seus medos e seus valores. Nos faz ficar pensando, e no entanto não nos dá nenhuma resposta. Às vezes você pensa: “que chato esse Raskolnikóv, um infantil”; outras vezes você percebe uma reflexão profunda, existencial. No fundo, para mim, é indecifrável. Talvez somente Sonia o entenda.
Também para suas reflexões filosóficas e existências (tão facilitadas pela atmosfera russa do século XIX) o autor parece não nos dar respostas, embora em vários momentos seja bastante assertivo. Mas sua assertividade, convincente, ao término nos deixa em dúvida se ele realmente afirma algo e acredita, ou se está nos dizendo exatamente o contrário. E todas essas reflexões e mergulhos no íntimo humano, feitos com maestria, são anteriores a Freud e a sua psicanálise. E óbvio, com outra linguagem.
O que num primeiro momento pode parecer uma reflexão sobre os valores morais e existenciais do homem russo, sua angústia frente à vida, descortinados com imensa sensibilidade, na realidade é um pouco da consciência do mundo, portanto universal, não russa, exposta.
E todos estes elementos estão também, enfadonhamente, em outras obras como “Noites Brancas”, “Notas do Subsolo”, “O Idiota” e finalmente em “Irmãos Karamázov”, um livro definitivo.
Ler Dostoiévski é entrar no laboratório do gênio. Sempre um desafio.

“Por que, diabo, me preocupo eu desta maneira e sofro todas estas inquietações por causa de uma bagatela?, pensou, sorrindo estranhamente. Hum! Sim, é isso, está tudo ao alcance do homem e tudo lhe vem parar às mãos, simplesmente o medo... Isto é um axioma... É curioso: de que será que as pessoas tem mais medo?...”

“Os indivíduos se dividem, segundo a lei da natureza, em duas categorias: a inferior (a dos vulgares), isto é, se me permite a expressão, a material, que unicamente é proveitosa para a procriação da espécie, e a dos indivíduos que possuem o dom ou a inteligência para dizerem no seu meio uma palavra nova. É claro que as subdivisões são infinitas...”

“De maneira geral, indivíduos com ideias novas, inclusivamente de algum modo capazes de dizerem algo de novo, nascem pouquíssimos, são de uma escassez verdadeiramente estranha.”

“Então adivinhei Sônia – continuou com entusiasmo – que o poder apenas se entrega a quem se atreve a inclinar-se e a apanhá-lo. Só é preciso uma coisa, só uma coisa: atrevimento para o fazer”.

“Será difícil encontrar outra terra onde atuem sobre a alma humana influxos tão tenebrosos, tão intensos e tão estranhos como em Petersburgo. Talvez seja a ação do clima! Mas, como é o centro administrativo do país, o seu caráter deve refletir-se na Rússia inteira.”

“Os russos, de maneira geral, são gente de vistas amplas, como a sua terra, e muito propensos para o fantástico, para o desordenado; mas infelizmente, trata-se de uma amplitude sem generalidade especial.”

“Mas aqui começa já uma nova história, a história da gradual renovação de um homem, a história do seu trânsito progressivo dum mundo para outro, do seu contato com outra realidade nova, completamente ignorada até ali. Isto poderia constituir o tema duma nova narrativa... mas a nossa presente narrativa termina aqui.”







quinta-feira, 3 de setembro de 2015

HERMITAGE; UM MUSEU ÀS MARGENS DO RIO.

HERMITAGE: um museu às margens do rio.
(Julio Pujol)
Em recente artigo neste blog escrevi sobre a Galeria Tretiakov, de Moscou, dedicada a reunir e conservar obras de arte tipicamente russas. Andar pelas suas salas é fazer uma viagem pela história e cultura daquele imenso país.
A Tretiakov cumpre o seu papel também porque reúne uma rica mostra do que os russos produziram de belo para o mundo. Ali se vê claramente o quanto uma cultura local, nacional, pode ser universal; o quanto o belo com suas diversas nuances é universal.
No Museu Hermitage, de São Petersburgo, têm-se de certa forma o oposto: seus criadores (os czares Pedro I, Isabel Petrovna, Catarina II, Nicolau, etc.) trouxeram o belo universal, de diversas culturas e tempos para dentro da Rússia.
O museu, um dos maiores e mais ricos do mundo, com suas mais de trezentas salas e com quase três milhões de peças, permite-nos apreciar um panorama da arte mundial (também um pouco daquela russa). Permite-nos viajar no tempo e no espaço.
Nele as obras de arte fundem-se com a beleza, suntuosidade e elegância (às vezes clássica, às vezes barroca e rococó) de suas salas e salões. Escadarias, mobiliário, decoração, arquitetura, mármores, jardins, o dourado das grandes portas, a luz que penetra pelas janelas e abre a visão do Neva, tudo é de uma beleza estupenda. Rio e museu também se fundem; um sonho.
Criado inicialmente, por Pedro, o grande, para ser a residência dos czares, na nova capital do Império Russo, e depois reconstruído por Isabel Petrovna o Palácio de Inverno (projetado pelo arquiteto italiano Rastrelli, em estilo Barroco) é o embrião do futuro Museu Hermitage.
Hoje o complexo do museu compõe-se do Palácio de Inverno, do Pequeno Hermitage (criado por Catarina II), do Velho (ou Grande) Hermitage, do Novo Hermitage e do Teatro do Hermitage.
O Hermitage ao longo da história resistiu a eventos muito difíceis: enchentes do Neva, incêndio, à Revolução de 1917, ao Stalinismo e mais recentemente ao cerco dos nazistas. Na Segunda Guerra os alemães cercaram São Petersburgo por novecentos dias. A ideia era conquistar a cidade pelos bombardeios, pela fome e pelo frio. Mais de três milhões de peterburguenses foram mortos.
As obras do Hermitage foram evacuadas para Ekaterimburgo, além dos Urais, na Sibéria, onde a guerra não chegou. Durante o cerco, apesar da fome e das bombas, as visitas ao Museu continuaram. Os guias mostravam as paredes vazias e apresentavam os quadros como se ainda estivessem lá. Era uma forma da arte também resistir à barbárie. O Museu carrega a mística de São Petersburgo, uma cidade que resiste.
 São Petersburgo foi uma cidade planejada e construída em 1703 para ser a capital do Império, às margens do rio Neva, que desemboca no mar Báltico, e dali liga a Rússia a toda Europa.  Pedro I primeiro pensou São Petersburgo como uma porta (ou janela) para a Europa.
As Obras
De fato o Hermitage nasce da vontade e decisão da czarina Catarina II que manda construir, ao lado do Palácio de Inverno, um “Eremitério”, ou espaço para contemplação e reflexão, onde ela poderia expor e apreciar suas obras de arte. Eventualmente Catarina convidava seus próximos a visitarem seu “Eremitério”. O silêncio e a formalidade eram a regra. Aos poucos o espaço foi sendo aberto à visitação de estudantes de arte. Dia 7 de dezembro (dia de Santa Catarina) é considerada a data de aniversário do Museu.
Das primeiras aquisições de Catarina, principalmente na Europa, nasce o acervo do Museu. Como não era uma especialista em arte, buscou ajuda de conhecedores, entre eles Diderot e Grimm. Em 1796 quando falece Catarina I o Hermitage já contava com quatro mil obras. Em 1805 torna-se um museu público, embora ainda Imperial.
Seu acervo só cresceu, embora em alguns períodos algumas obras foram vendidas e, depois da Revolução, o Hermitage abasteceu vários museus do interior da Rússia.
Difícil enumerar ou falar hoje das importantes obras que existem lá. Como falei antes, são quase três milhões. Claro, nem todas são quadros. Estão lá objetos arqueológicos dos Citas, primeiros povos a ocuparem o território russo, dos gregos, dos egípcios, dos africanos. Prataria francesa, cerâmica inglesa e italiana, mobiliário e vestimentas dos czares russos, bustos romanos, arte chinesa, e tanto mais.
Mas o que torna o Hermitage uma referência e um dos principais museus do mundo sem dúvida é a coleção de pinturas. E esculturas. Ali se pode ver um panorama da arte europeia do século XV ao século XX. Há preciosidades como obras de Michelangelo, Rafael, Leonardo da Vinci e de vários do Renascimento Italiano.
O museu possui uma das maiores (ou a maior) coleções da Arte Holandesa e Flamenga do período Barroco do mundo. Um grande acervo do classicismo e do expressionismo francês. Obras do retratismo inglês e uma grande coleção também dos espanhóis do século XVI.
Não dá para citar todos, mas para termos noção da grandeza do Hermitage podemos falar de quadros dos italianos Ticiano, Tintoreto, Veronese; “O Tocador de Alaúde” de Caravaggio, “Judite” de Giorgione... Depois tem os espanhóis, holandeses, alemães, ingleses, franceses. “São Pedro e São Paulo” de El Greco; “Perseu e Andrômeda” de Rubens. Muitos Rembrandt como “A Volta do Filho Pródigo”, Hubert Robert (a maior coleção do mundo).
Tem Francisco de Goya, Monet, Rrenoir, Van Gogh. Sim, tem Van Gogh. Um grande acervo, luminoso, de Gauguin. Tem Cézanne, Picasso, Kandinsky e Matisse. E vou parando por aqui para alguns breves comentários pessoais.
Estive apenas uma vez no Hermitage.





. Uns dois dias e sei que precisava muito mais. Na realidade o Hermitage é infinito se a cada vez também nosso olhar é novo. Vale uma viagem a São Petersburgo. O problema é que também a cidade é uma obra de arte e demanda muitos dias e muitos olhares. Escreverei.
Para mim, de apaixonar, no Hermitage e cito apenas algumas impressões e sensações está em primeiro lugar (para um professor de história) poder subir as escadarias do Palácio de Inverno por onde os Revolucionários de Lênin subiram naquele outubro de 1917 e mudaram a história da humanidade no século XX. E onde também Eisenstein filmou o seu famoso filme “Outubro”, para comemorar os dez anos daquela Revolução.
As esculturas de Rodin, Falconet e Canova são indizíveis. Só o silêncio pode explica-las. Na linguagem popular: “só vendo”. E é isso: só vendo. “As Três Graças” de Canova é absolutamente espiritual, porque é possível arrancar o espiritual da pedra. E Canova conseguiu. É Sublime. Só essa peça vale uma viagem à Rússia.
Mexeu comigo estar diante de “A Dança” e de “A Música” de Matisse. Dois imensos quadros de 2,60m por 3,90m. Impactante. Não sabia que estavam lá, e quando entro em uma sala eles se apresentam enormes. Se pode dançar junto. E estar diante de um Van Gogh também te tira as palavras. As cores de Paul Gauguin me seduziram. Na realidade cada sala te acolhe como se ela fosse a mais exuberante. Até você passar para a próxima.
Bem, não se pode escrever tudo, então vou parando.
Pra encerrar, três referências que me ajudaram neste texto:
O álbum-roteiro “Ermitage” da Ed. P-2 de São Petersburgo, 2006;
e “Museu Hermitage” – Coleção Folha – Grandes Museus do Mundo – 16, 2009 da Ed. Mediafashion. RJ.

O filme “Arca Russa” de Alexander Sokurov, 2002, filmado todo dentro do Museu em uma tomada só, que mostra o quanto está ali um pouco, ou muito, da alma Russa.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Moi Piter (Мой Питер) - Louise Bassini








                     De ti,

       aceito até 

                     tua ideologia

                crucificada
Em imagem 
                
                - verso - 

qual pílula
               
               dourada

E quem se deu ao trabalho
de minimamente 

             - conhecer-me - 

 Sabe que não cedo este pensar a outra morada

Se fosse preciso descrever
                                           o que é amor

Embora a mim não caiba  nenhuma 

               matemática

Eu reservaria - a mim - tua aparência

Enigmática Num pedestal de vidro,
paixão e ardor

Não cabe a mim (julgar-te),
                                         
              ó amada!

 E bem sei que és única
              
                                                           ao teu jeito

Que doa-me em silêncio
qualquer feito
Como aguenta em silêncio um ser

            - de amor - 


E sinto que sei pouco,
(embora sinta)

Tua     brisa      na     minha     face,

trazendo a mim

Um cordão
a amarrar-me então sem fim
Que adorna
mas aperta

(até a dor)

E se odestinofor     - amar-te -     semmotivos

Embora algum misticismo

'inda me reste

Tão pouco me apego
ao que entristece

Cabe apenas
                   ao que é 
                   
                   ser

                                       
                   o que for.