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segunda-feira, 29 de junho de 2015
quinta-feira, 11 de junho de 2015
Moscou, ah Moscou...!
Moscou, ah Moscou...!
Os poucos dias que passei, e que
passamos, em Moscou mostraram-me uma cidade mais aberta e receptiva ao
estrangeiro que das outras vezes que estive lá. A força é a mesma. A grandeza é
a mesma. E contagiante. Mas, diferente de alguns anos atrás, me parece, é uma
força de certa forma libertada, desamarrada. Parece que os russos estão mais
seguros e confiantes em si mesmos. Sim, ainda mais.
Estive lá pela primeira vez em 1997,
poucos anos após o fim do socialismo. Afora o deslumbramento por tudo e pela
minha primeira grande viagem internacional, percebi um povo mais refratário ao
estrangeiro, olhando com certa desconfiança e talvez espanto. Às vezes mesmo
ignorando-nos. Não havia vitrines, quiçá lojas, os restaurantes eram quase secretos,
não se os via. As pessoas no metrô eram mais silenciosas, as fotos mais
desafiadoras (mas já permitidas). Os moscovitas eram quase impenetráveis. E
mesmo assim apaixonei-me desde o primeiro instante; desde a chegada ao
aeroporto.
Na segunda vez, em 2008, foi tudo
mais tranquilo. Deslumbrei-me com a beleza de São Petersburgo; com os palácios,
igrejas, com os canais e com o balet; com a avenida Nevski e com as Noites
Brancas. Com o povo na rua aproveitando cada minuto de sol do verão e de um dia
que se estendia até depois da meia-noite (o sol da meia-noite)... na Nevski... Um
povo já receptivo aos turistas, já um pouco mais acolhedor e curioso.
Em Moscou os velhos “Ladas” iam
desaparecendo, as luzes capitalistas se acendendo, a “Velha Arbat” se
colorindo, a Tverskaia se congestionando e a Praça Vermelha sempre cheia, mais
fotografada que a Torre Eiffel. Moscou também é bela no verão.
Agora em 2015 vi uma Moscou
cosmopolita, em franca abertura, jogando o jogo, enfrentando os desafios e
problemas advindos de uma transição muito rápida, querendo interagir com os
estrangeiros, curiosa e mais acolhedora. (numa manhã ao perguntar a um jovem
russo que passava em frente ao hotel onde ficava a estação do metrô ele me
levou até lá, pagou o meu bilhete pois eu estava chegando e ainda não tinha
Rublos, e ainda me emprestou, ou deu, 50 rublos para eu pagar a volta só pelo
prazer de saber do Brasil, do que eu fazia lá, do que eu achava da Rússia. E
eu, no meu precaríssimo russo tentei retribuir a sua curiosidade. Fiz um amigo
em minutos). Moscou está recebendo e
fazendo muitos investimentos. Hotéis, cafés, restaurantes, lojas, pontos
turísticos, galerias de arte, metrô, está tudo muito acessível.
Penso que os russos encontraram em
Putin a estabilidade e segurança para que pudessem se desenvolver em plenitude.
O russo, um povo educado e patriótico, inteligente e forte, quando de mãos
desamarradas constrói coisas grandiosas. E isso é o que vimos em Moscou em
todas as áreas: dos hotéis às igrejas, das ruas às empresas, do metrô à moderna
Moscou City, da Universidade à Tretiakovskaia Galeria.
Numa reunião com a Associação de
Empresários de Moscou, perguntado se ainda alguém sentia saudades do socialismo
o russo respondeu: “a Rússia entrou no capitalismo mas ainda guarda muitas
coisas do socialismo (as pessoas querem a segurança de um Estado forte,
interventor, protetor e que dê garantias)”. Disse que esse era um assunto para
ser debatido em outra mesa (num bar) com outro líquido (não água) sobre ela e
por muito tempo, ou seja, é um debate ainda aberto “o que se ganhou e o que se
perdeu com o capitalismo”. Mas não se fala em volta. Hoje se pode debater
livremente e o bom humor russo (sim, o russo é bem humorado, simpático) pode
ser externado francamente.
Moscou vive um ótimo momento; muito
dinâmico. E como nos disseram por lá, a Rússia passa por Moscou.
O Dia da Vitória
Foi um presente inusitado, um
acréscimo, estar em Moscou no dia nove de maio, data em que os russos comemoram
do Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial (este ano comemorando os 70 anos).
Esse conflito para os russos tem um
caráter particular. Em 1941 seu território foi invadido por Hitler em três
frentes com três milhões de soldados. Os
russos resistiram feroz e heroicamente à invasão. Para eles essa guerra é
chamada de Grande Guerra Patriótica porque foi uma guerra em defesa de sua própria
existência enquanto Nação.
Vinte e cinco milhões de russos morreram
defendendo o país nos quatro anos de guerra. Venceram os nazistas e os fizeram
recuar até Berlim. Sim, os russos foram os
primeiros a entrar em Berlim em 1945, a derrotarem os nazistas e conquistarem
sua rendição, dando fim ao projeto de Hitler.
Era feriado nacional no dia 09, e
desde cedo milhares e depois milhões de moscovitas saíram às ruas para assistirem
aos desfiles militares e prestarem suas homenagens aos heróis da pátria.
Milhares levavam cartazes com fotos dos soldados, seus familiares, mortos na
guerra; de crianças aos anciões todos com um profundo respeito. Apesar do
feriado o metrô estava lotado.
Tive oportunidade de ver andando na
rua e acompanhar um veterano da resistência (certamente com mais de 90 anos)
acompanhado de sua filha. As pessoas paravam, tiravam fotos, outras muitas lhe
entregavam flores, outros batiam continência. Era quase uma veneração.
No desfile militar pude ver o
entusiasmo e a identidade que o povo tem com os seus militares.
Bem, essa é a Rússia; Um povo que se
lança seguro rumo ao futuro. Um povo forte, educado e culto, que tem exata a
noção de Pátria, que pagou um alto preço por sua liberdade e que, por tudo
isso, não tenho dúvida será (ou já é) uma peça chave na geopolítica do milênio
que recém se inicia.
O Bolshoi – ter ido no Bolshoi e na Galeria
Tretiakov de arte russa merecem um outro artigo. O metrô também; e a Praça
Vermelha também. O impacto disso tudo para o grupo de brasileiros do nosso MBA que
esteve lá também. Escreverei.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
E k a t e R i m B u R g o
E k a t
e R i m B u R g o
Mais do que a cidade onde foi
morto o último Czar da Rússia; mais do que a cidade para onde a indústria foi
removida durante a II Guerra Mundial e que abasteceu a resistência ao nazismo;
mais do que a cidade “secreta” da era soviética, dos grandes projetos
científicos e militares; mais do que a cidade que separa (ou une) a Rússia europeia
da Rússia asiática; mais do que a cidade de Boris Ieltsin. Mais também do que a
cidade por onde passa a ferrovia Transiberiana a caminho da Mongólia, do Baikal,
da China e de Wladivostok, por onde sopra o vento dos Urais...
Ekaterimburgo, uma cidade
ensolarada na primavera, foi fundada em 1723 durante o reinado do czar Pedro, o
Grande e foi nomeada em homenagem a sua esposa Catarina I, portanto tem quase
trezentos anos e desde o seu início possui uma vocação industrial e estratégica
para o país. É a quarta maior cidade da Rússia, situada no centro do país. (Senão
o centro geográfico, o centro estratégico porque próxima e acessível a grande
economia asiática, um dos eixos fundantes da Rússia do futuro.)
Com 1,5 milhões de habitantes,
distante dos quase 12 milhões de Moscou e dos quase 5 milhões de São
Petersburgo, Ekaterimburgo vive um bom momento. Cidade situada numa zona de
muitos recursos naturais, particularmente minerais, tem já uma tradição
industrial (mesmo que por muito tempo estatal) é um grande polo científico e de
inovação da Rússia.
Capital da região dos Urais,
Ekaterimburgo foi sede da reunião dos BRICS em 2009 que examinou os efeitos da
crise norte-americana de 2008 para o mundo e hoje vem se consolidando como um
grande centro de feiras e eventos internacionais, seja na área da indústria
civil ou militar, seja no campo científico e acadêmico, seja na área do
comércio regional e internacional, seja voltados para a Ásia, seja voltados
para o Ocidente, seja voltados para o Sul.
Em 2018 Ekaterimburgo será uma
das sedes da Copa do Mundo de Futebol e já está se preparando para fazer deste
evento uma oportunidade de negócios e de incremento do turismo. Tarefa difícil
esta última frente a polarização que exercem Moscou e São Petersburgo nessa
área. Ekaterimburgo permaneceu uma
cidade “fechada” durante o regime soviético; era difícil um estrangeiro visitá-la
assim como era difícil um cidadão seu deixá-la. Muitos projetos de interesse da
segurança soviética eram desenvolvidos ali.
Em recente visita de estudos à
cidade tivemos a oportunidade de conhecer grandes indústrias, uma siderúrgica,
uma fábrica de lâminas e fios de cobre, entre outras, assim como conhecer a
Universidade Federal dos Urais e o seu projeto de desenvolvimento da
nanotecnologia. Conversamos com pesquisadores, professores e estudantes.
Ficamos satisfeitos ao saber, e conhecer, brasileiros que estão lá se
aperfeiçoando.
Reunimos com a Associação
Empresarial dos Urais com a qual pudemos constatar o imenso profissionalismo e
seriedade com que jovens e novas lideranças da cidade e da região projetam e
preparam o futuro. É preciso lembrar que no campo empresarial tudo é
relativamente novo na Rússia pois até pouco mais de vinte anos atrás tudo era
socialista-estatal. Compreende-se assim a pressa e o empenho em acertar.
Nestes contatos procuramos
estreitar relações econômicas, sociais e políticas entre essa cidade e as
nossas cidades brasileiras, entre a Rússia e o Brasil, dois grandes dos BRICS
que tem muito em comum e ao mesmo tempo tem muito a aprender e ensinar um ao
outro.
Pelo que vimos, pela disposição
aberta e séria com que fomos recebidos, pelo profissionalismo da postura, pela
jovialidade das iniciativas e pela perfeita consciência do momento histórico
que estão vivendo podemos afirmar com tranquilidade que Ekaterimburgo e os
Urais são peça fundamental na nova Rússia que vemos nascendo.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Impressões sobre a Ucrânia
Impressões sobre a Ucrânia
É bom lembrar que a
Ucrânia é a terra dos Citas e dos Cossacos, de Chernobil, da Criméia e da
Guerra da Criméia, de Gogol e de Taras Bulba, da Catedral de Santa Sofia, de
Sebastopol e de Odessa. (Nas escadarias do porto de Odessa foi filmada uma das
mais famosas cenas da história do cinema mundial de um dos filmes mais
importantes da história, “O Encouraçado Potemkim”, de Eisenstein. Na cena
acontece o massacre de populares por tropas czaristas e um carrinho de bebê
começa a descer a escadaria desgovernado.
A Ucrânia é o maior território da
Europa (excetuando-se a grande Rússia) e tem as melhores e mais produtivas
terras, as chamadas “Terras Negras”, que no tempo da invasão nazista eram
transportadas em vagões de trem para a Alemanha.
A Ucrânia fica no centro da Europa,
ou melhor, divide (ou liga) a Europa Ocidental com a Rússia e com a Ásia. Do
mesmo modo é rota importantíssima de ligação do norte (o Mar Báltico) com o sul
(o Mar Negro). Historicamente os Vikings vindo do norte (da Suécia e
Escandinávia), antes do ano 1000, trilharam este caminho via rio Dniepr para
chegarem ao Mar Negro e ao então Império Bizantino. No caminho deixaram
aldeias, cidades e principados. No seu caminho estava Kiev, que floresceu e
tornou-se uma das mais importantes cidades do primeiro milênio.
Em Kiev nasceu a Rússia; a chamada
Rus de Kiev (da religião Ortodoxa, de Santa Sofia, do alfabeto Cirílico), que
mais tarde, devido a divisões e a invasão dos Mongóis (ou Tártaros como eles
chamam) transferiu seu centro para a região de Moscou. De fato, a grande Rússia
nasceu em Kiev, que foi a sua primeira capital, e esse é um dado primacial para
se compreender aquela região.
Como se diz que “o Egito é uma dádiva
do Nilo”, pode-se dizer que Kiev e a Ucrânia (e quiçá a Rússia) são uma dádiva do Dniepr.
Uma vasta região, um vasto rio,
planícies abertas, fronteiras abertas, terra fértil, deram a configuração
básica da Ucrânia. Foco de disputa e de ocupação de vários povos (Ucranianos,
polacos, lituanos, búlgaros, teutônicos, turcos, mongóis-tártaros, cossacos,
vikings, russos...) a Ucrânia, pela primeira vez é uma Nação independente; até
1991 fora uma República Soviética sob o comando de Moscou. Há pouco mais de
vinte anos vem tentando construir uma identidade e um caminho próprio numa zona
tão delicada e centro de tantos interesses.
A Ucrânia, neste contexto, necessita
muito mais de diplomacia do que de armas para poder construir um equilíbrio mais
perene e poder desenvolver todo o seu potencial.
Sem dúvida Ucrânia e Rússia são povos
irmãos, por constituição básica; precisam uns dos outros, embora tenham também
em história recente atritos e crueldades. (o regime soviético foi muito duro
para a Ucrânia).
Também a Ucrânia, celeiro da Europa,
não pode prescindir de suas relações com o Ocidente. Europa e Ucrânia respiram
do mesmo ar. Seus povos e economias são muito interdependentes.
O que vi, passando alguns dias neste
país, foi justamente isso, um país jovem, paradoxalmente com uma história
milenar, formado por pessoas fortes, com jovialidade para construir uma
identidade de Nação e um espaço próprio e autônomo. Muitas iniciativas novas no
campo empresarial, cultural, turístico, social e institucional. É um país em
construção.
Um povo alegre que busca em suas
sólidas raízes culturais a força para se projetar com grandeza no futuro.
Querem mostrar quem são; Querem mostrar que são capazes; querem olhar de frente
os seus “irmãos do norte” como chamam os russos e os seus irmãos do oeste.
Querem retomar a força de Kiev que já foi maior que Paris e Londres juntas.
E eles tem o Dniepr, de águas escuras
e geladas, e de uma força impressionante, que apenas tocada transforma tudo. E
eles tem Vitolga...
quarta-feira, 15 de abril de 2015
TIO VÂNIA
TIO VÂNIA
Em regra na
língua russa as palavras femininas terminam com as letras “a” e “ia”. Tio
(Diádia) é uma exceção das poucas que existem; mesmo terminando com “a” é uma
palavra masculina.
Vânia é um
diminutivo/apelido de Ivan.
“Diádia Vânia” então traduz-se por “Tio
Vânia”. . Esse é o título, já sinalizador do que viria, desta peça meio
dostoiévskiana de Tchékov.
Tchékov, como
sempre, tira das sombras vidas comuns, com problemas comuns de personagens do final
do século XIX russo (do qual já falei na resenha de “O Jardim das Cereijeiras”
neste blog). Aquele desencanto com a vida, agravado nos longos dias de nevasca
e só amenizado pela quentura do álcool.
O autor nos
leva para dentro de uma dacha (ou casa de campo) onde vive uma família comum
(um professor aposentado que sofre de gota ou reumatismo, sua jovem bela e
desencantada esposa; sua filha moça e feia; Uma viúva meio amargurada, meio
nostálgica, um cunhado e tio – o Vânia, também desencantado com a vida e deprimido
que percebe o vazio que construiu até então com os seus erros e escolhas; um
médico também desencantado com todo o resto e que se sente impossibilitado de
amar – e mesmo assim ama , trabalha muito percorrendo as estradas enlameadas do
interior à noite para socorrer doentes também desencantados em aldeias
miseráveis; Um proprietário falido e ignorante.)
São personagens
que encerram em si todo um fim de século no campo, marcado pelo fim da
servidão, abandono nos confins esquecidos da velha Rússia, pela pobreza, pela
decadência do que havia de nobre nas aldeias do interior do país e como o
álcool vai se tornando a grande panaceia e ao mesmo tempo o grande mal do
século.
Vânia não tem
saída; é tarde para ele; Ninguém tem saída. Sobra apenas uma esperança para “o
depois da vida”. E uma resignação. E continuar vivendo “até deus chamar” uma
vida sem alegria, sem esperança, sem novidade; Uma vida a ser resignadamente
cumprida, trabalhando e vivendo o que é posto.
E é só isso
mesmo. A peça não tem grande enredo e nem um grande desfecho. É marcada por
pequenas reflexões de pequenos personagens. O resto fica por conta de quem lê,
ou vê.
“...vivemos
cercados de pessoas absurdas – basta conviver com elas dois ou três anos e, aos
poucos, sem nem perceber, também nos transformamos em seres absurdos. É fatal.”
“... mas
o samovar tem que ficar fervendo desde
manhã cedo...”
“...
uma vida ociosa é uma vida impura...”
“...
eu amo a vida. Genericamente falando. Mas a nossa vida, o dia-a-dia da Rússia
provinciana, isso eu não suporto...”
“...
Na Rússia um homem de talento não atravessa a vida sem manchas.”
quarta-feira, 4 de março de 2015
TCHÉKHOV – O JARDIM DAS CEREJEIRAS
TCHÉKHOV – O JARDIM DAS CEREJEIRAS
Assim como para o Brasil, o século
XIX para a Rússia foi um século de muitas transformações que, pode-se dizer,
terminou apenas em 1917 com a Revolução. (Às vezes acontece isso, de um século
avançar sobre o outro, ou também o oposto, ser encurtado pelo próximo que já
inicia prematuramente. A história e a vida não seguem exatamente os calendários
criados pelos homens).
O “ottocento” russo foi um período
ainda do explendor da nobreza, de riqueza, dos teatros e dos cafés lotados, dos
passeios na Névski, dos grandes concertos e das grandes óperas, do
florescimento de São Petersburgo e de Moscou. E foi também um século de
gigantes; de Dostoiévski, Púschikin, Tolstói e Gogol na literatura, de
Tchaikóvski, Mussorgski e Glinka na música, entre tantos, tantos outros... De
Diaghilev, Kandinski, Chagal, Block que adentraram o século XX; da fundação da
revista “Mir Skustva” (Mundo das Artes) e do Teatro de Arte de Moscou, de
Stanislávski.
Foi também o século da Guerra da
Criméia, das reformas legislativas, do judiciário e do exército. Foi também o
século da “Grande Guerra Patriótica” (1812) quando os russos vencem Napoleão
que havia invadido o seu território, episódio epicamente retratado na grande
obra de Tolstói “Guerra e Paz” (Vainá e Mir). Sim, na língua russa a palavra “MIR”
significa PAZ e simultaneamente MUNDO.
Em 1861 os servos são libertados (no
Brasil os escravos são libertados em 1888), o que de certa forma foi um golpe
fatal à nobreza tradicional czarista. O país se urbaniza, muitos camponeses vão
para as grandes cidades, os comerciantes se fortalecem e a indústria também. Surgem
diversos bancos e o capital estrangeiro começa a aparecer em abundância.
O velho modo de vida russo, camponês
e arcaico começa a ser suplantado por um modo novo, urbano, arrivista,
cosmopolita, em outras palavras, capitalista. E começam também a surgir as
teorias socialistas de Marx, Bakunin, Lênin, Plekhanov...
A Rússia era (e ainda é) o maior país
do mundo, indo da Finlândia e Polônia ao Alaska e (curioso) chegando até a
Califórnia nos Estados Unidos, e passa a “contar” no tabuleiro geopolítico
europeu.
O Jardim das Cerejeiras:
Na peça “O Jardim das Cerejeiras”
Tchékhov retrata justamente o final do século XIX, onde essas transformações
estão no clímax, através do drama de uma família aristocrática afundada em
dívidas que acaba perdendo em leilão a sua propriedade rural (um cerejal) que
por muitas décadas foi o símbolo de seu prestígio e nobreza;
A propriedade viu passarem por ela
gerações, grandes bailes, saraus, festas, romances e casamentos. O cerejal,
mais que um pomar de cerejeiras destinado a produção e ao comércio representava
uma inesgotável fonte de riqueza e fazia parte do imaginário daquela família
(assim como os casarões das fazendas de café do século XIX brasileiro).
A peça de Tchékhov e seus personagens
retratam este período de transição: há o comerciante recém enriquecido, o
antigo servo libertado, velho e fiel; a família decadente, empobrecida e
instável, o jovem urbano e ambicioso, o burocrata, as amas, as jovens
sonhadoras, entre outros.
Apesar do contexto, não é uma peça
histórica no sentido lato, (não é um documentário histórico), mas é uma
história que reflete dramas humanos de um período de transformações e
incertezas. Mal sabiam o que os esperava no século XX.
O Jardim das Cerejeiras teve sua
primeira montagem em 1904 pelo iluminado Stanislávski e o seu Teatro de Artes
de Moscou e foi um grande sucesso.
Por que “Jardim das Cerejeiras” e não
simplesmente “Cerejal”? A explicação está justamente na sutileza, no simbolismo
do “Jardim” que propõe algo mais que uma plantação para o comércio; remete a um
tempo de idílio, de felicidade, até de ingenuidade.
A peça encerra com a família de malas
prontas despedindo-se da casa grande, das suas paredes, das suas memórias, da
sua nobreza, ao mesmo tempo em que ao fundo já se ouve o som dos machados sobre
o cerejal onde será construída uma vila de veraneio, com cabanas de aluguel
para as novas classes russas.
Tchékhov e Stanislávski, uma dupla
que marcou o teatro russo e mundial.
Anton Tchékhov – O Jardim das Cerejeiras
Tradução de Millôr Fernandes
LPM Pocket
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
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