terça-feira, 11 de agosto de 2015

Moi Piter (Мой Питер) - Louise Bassini








                     De ti,

       aceito até 

                     tua ideologia

                crucificada
Em imagem 
                
                - verso - 

qual pílula
               
               dourada

E quem se deu ao trabalho
de minimamente 

             - conhecer-me - 

 Sabe que não cedo este pensar a outra morada

Se fosse preciso descrever
                                           o que é amor

Embora a mim não caiba  nenhuma 

               matemática

Eu reservaria - a mim - tua aparência

Enigmática Num pedestal de vidro,
paixão e ardor

Não cabe a mim (julgar-te),
                                         
              ó amada!

 E bem sei que és única
              
                                                           ao teu jeito

Que doa-me em silêncio
qualquer feito
Como aguenta em silêncio um ser

            - de amor - 


E sinto que sei pouco,
(embora sinta)

Tua     brisa      na     minha     face,

trazendo a mim

Um cordão
a amarrar-me então sem fim
Que adorna
mas aperta

(até a dor)

E se odestinofor     - amar-te -     semmotivos

Embora algum misticismo

'inda me reste

Tão pouco me apego
ao que entristece

Cabe apenas
                   ao que é 
                   
                   ser

                                       
                   o que for.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

GALERIA TRETIAKOV E GALERIA ONTOARTE – DUAS ESTRADAS PARA O BELO

GALERIA TRETIAKOV E GALERIA ONTOARTE – DUAS ESTRADAS PARA O BELO











A Rússia e a Ucrânia são Europa. Mas uma Europa diferente. Uma Europa maior que a Europa. Uma Europa multi-étnica, multi-línguas; uma Europa que traz a Ásia dentro. Uma Europa que olha para o norte e para o sul, para o oeste e para o leste.

TRETIAKOV –
Ainda no século XIX o rico industrial e comerciante Pavel Tretiakov inspirado nos museus e galerias da Europa criou um espaço, e um acervo, que reunia o melhor da cultura russa. Queria disponibilizá-lo à visitação de todo o povo pois considerava que a produção artística e cultural (particularmente a pintura) era uma produção e um patrimônio de todo o povo. E assim o fez.
Tretiakov usou sua fortuna, prestígio e conhecimento de arte para adquirir uma quantidade imensa de quadros dos melhores artistas russos. Assim nasceu no coração de Moscou a Galeria Tretiakov, hoje um imenso espaço público aberto à visitação de qualquer cidadão, russo ou estrangeiro.
Entrar na Galeria é um privilégio, como de fato entrar em qualquer grande galeria ou museu do mundo. Ao passar a porta você é transportado para uma outra dimensão. Uma dimensão onde o silêncio vale; uma dimensão onde a contemplação vale, onde o tempo parece que fica suspenso, e você é simplesmente levado pelos olhos. E vai flutuando de peça em peça. E não quer ir embora. E é surpreendido e surpreendido.
Na Tretiakov está exposta uma síntese da produção artística, da cultura e da história milenar da Rússia, desde as pinturas sacras da Rússia de Kiev e de Novgorod, aos ícones da Idade Média russa como o genial, genial “Trindade” do genial Andrei Rublev. A “Trindade” capta o espírito através das formas dos homens; consegue dar forma ao silêncio, pintar o instante de paz através da luz e da harmonia das figuras; que atinge a perfeição. Vale a pena conhecer esse quadro. E está ali... Só ele vale uma viagem a Moscou.
Depois tem as cenas da história do país e do cotidiano das aldeias do interior da Rússia; tem os retratos da nobreza e dos czares, tem a imponência de uma arquitetura única das igrejas e palácios; tem a crueldade dos guerreiros e o sofrimento do povo; tem as festas populares e os trenós na neve. Tem os retratos dos grandes: Pushikin, Dostoiévski, Mussorgski... Tudo isso com cores, traços e a maestria dos grandes russos como Repin, Fedotov, Shedrin, Rokotov, Kranskoi...
Tem retratos de Pedro, o Grande, de Catarina, a Grande, entre tantos outros. Tem retratos de damas, de jovens e belas russas; poderosas e enigmáticas como as Monalisas. Vale um suspiro; são realmente lindas. E tem a Vanguarda Russa do início do século XX, os formalistas/construtivistas/abstracionistas/suprematistas (Kandinski, Tatlin, Chagal, Rodshenko, Malevich...) e a arte soviética do pós-1917, o Realismo Socialista, ainda hoje uma descoberta para o ocidente.
Pois é, e está tudo lá. Aberto ao público. Esperando... Você viaja um milênio inteiro em algumas horas.

ONTOARTE -

Na Ucrânia visitei a Galeria de Ontoarte que expõe as obras do mestre Antônio Meneghetti, no coração da milenar Kiev. Sim, Meneghetti também pintava. No centro da cidade, próximo às antigas muralhas, protegida pelo Dniepr, uma Galeria de luz. Luz e luz. Estradas do espírito, do belo e da contemplação.
“A Ontoarte é um fazer aberto, o capricho amável do Ser como novidade de existência positiva.”
Obras dos mais belos traços do íntimo humano. Uma arte que irradia paz a todos que a contemplam. Que comunica valores e critérios. Que transforma para sempre. Que se quer levar junto.
Na Galeria Ontoarte é só o belo expresso no belo. O belo que se mostra e se transforma quando os olhos o tocam. Um belo que comunica e faz mais belo. Que te faz partir calado. Que centra tua estrada na estrada. Tua alma na alma. Tua luz na luz. O teu belo no belo.
No coração ensolarado de Kiev. No coração da Europa. Uma experiência quase incomunicável por palavras. Meu esforço aqui é enorme.
Uma obra de ontoarte é vida. Vida que comunica mais vida. É inspiração que provoca mais inspiração. É beleza que quer dançar com mais beleza. É estrada que quer caminhar. É ação que quer mais ação.
“intuir, interagir e compreender OntoArte é deparar-se consigo como novidade, beleza, criatividade e prazer estético”... Prazer estético...

No Brasil também tem Galeria Ontoarte. Ali no Recanto Maestro, próximo a Santa Maria.


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Rússia: O que ela faz com a gente




Rússia: O que ela faz com a gente
Louise Bassini

Há um silêncio escondido no som do ar fresco do verão russo. Ele dialoga conosco quando, de súbito, adentramos uma rua vazia. Memórias que antes não nos pertenciam acariciam-nos e, num repente, somos invadidos por milhares de sentimentos que passam a ser nossos. E os nossos sentimentos passam a ser do vento. Nessa troca irreversível, você vê a si mesmo nas folhas das árvores, reconhece com mais familiaridade o cheiro das coisas, misturam-se realidade e pensamento em coisa vivida, sem linhas de corte.
A Rússia não é apenas suas construções majestosas, seu colorido, seus Ladas e Mercedes. A Rússia é o que ela faz com a gente quando estamos sozinhos. É o momento em que fica só você e ela. O sentimento mais puro de intimidade e contato com o ambiente. O que ela faz com a gente é uma coisa de mulher amada e louca. Ela demanda amor demais e, ao mesmo tempo, parece uma garantia de porto seguro de amor em retorno. Você se sente aconchegado no amor de um território que sofreu tanto, que aprendeu a ter ternura diante das crises mais obscuras.
Ela é aquela cicatriz latente que a gente tem orgulho de mostrar porque sobrevivemos ao ataque que a deixou na nossa pele. Não é pouca coisa, jamais será insignificante.
É aquele amor aparentemente estável que nos invade como um turbilhão apenas com a leitura de uma frase, escolhida ao acaso em um livro. Como se essa frase fosse um segredo a ser divido entre você e ela, e há um misto de lágrima de comoção com um sorriso de satisfação.
Ela é todo um universo de tudo que está dentro, exteriorizado em imagem e colorido do lado de fora. E quando alguém pergunta, em tom de deboche: “Você realmente gosta da Rússia, hein?”, eu tenho o orgulho e a certeza de poder responder: “Eu não gosto. Eu a amo.”.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A crítica social por trás de Leviatã




A crítica social por trás de Leviatã

Alessandra Scangarelli Brites


Em uma tarde de domingo, durante nossos “momentos” de reflexão e leitura, minha madrinha e eu comentávamos que os filmes, como os livros, para além do entretenimento servem como ferramenta de reflexão filosófica e sociológica. Ainda aqueles que parecem sem qualquer pretensão de análise, acabam por transmitir valores sociais já conhecidos, nem que sejam para cultivá-los, perpetuá-los. E, certamente, existem aquelas obras cinematográficas cujo objetivo seria o de promover uma discussão do cenário político, social, econômico. A escola soviética baseou-se, em grande parte, nesta premissa para além: o cinema como uma ferramenta transformadora da realidade humana.
Como russos, também franceses da Nouvelle Vague, do neorrealismo italiano e alemão, as escolas muito estudadas nas disciplinas e faculdades de cinema no âmbito mundial, tinham como fator básico tal premissa. Com o fim da União Soviética e, consequentemente, da Guerra Fria, o que significa dizer o fim da dicotomia e competição civilizatória mundial, que ocorreu entre os diferentes sistemas capitalista e socialista, esta linha de pensamento cinematográfico passou a ter menor preponderância. E atualmente, em um período considerado de crise criativa do cinema, quando a premissa de busca pelo lucro impera, tanto os grandes estúdios quanto às médias e pequenas produtoras direcionam suas produções para entretenimento, ou histórias de cunho pessoal, transtornos psicológicos, que apenas refletem alguns aspectos da sociedade de nossos dias.
Extremamente individualistas, nas temáticas mais preponderantes está a busca pelo prazer descomunal. Isso nos leva, por decorrência destes e outros fatores, a conviver com diversas doenças de cunho psicológico, que parecem afetar a todos, em especial aos mais sensíveis. Particularmente, os que percebem o drama existencial que se vive. Sim também existencial, pois com o fim da União Soviética, ainda que com os erros do sistema, um ideal, ou a possibilidade de alternativa ao sistema vigente, o capitalismo, passou a ser mais remota. O capital, cujos seguidores promoveram e continuam a propagar a ideia de que não existe outra possibilidade ao sistema existente. Há, portanto, um vazio, que tenta ser preenchido por algumas formas ideológicas inclinadas para um radicalismo, a exemplo: o fundamentalismo religioso, os ecoradicais, que querem esterilizar populações inteiras dos países em desenvolvimento como se eles fossem a causa dos problemas, e o neonazismo.
Contudo, por sorte talvez, nenhuma delas têm ainda credibilidade suficiente para tornarem-se hegemônicas. Porém, o sistema liberal, do ultra individualismo que preserva a essência animal do homem, em que o mais forte deve vencer o mais fraco, tão pouco nos parece uma alternativa, embora seja a que estamos consolidando, talvez sem saber. Estes cenários são típicos dos períodos de crise que são os melhores momentos para a criatividade humana, se tivermos a sensibilidade para tanto. Leviatã (2014), de Andrei Zviáguintsev, ganhador de melhor roteiro em Cannes, do Globo de Ouro 2015 e indicado ao Oscar 2015 de melhor filme em língua estrangeira parece correr estes caminhos e é sobre ele que vamos comentar um pouco mais a seguir.
Em uma pequena cidade, no litoral da Rússia, perto do Mar de Barents , Kolia, um homem de meia idade e pai de família, tenta impedir na justiça que sua casa seja derrubada pelo prefeito local, conhecido por seus esquemas de corrupção. Para além de mais um filme sobre corrupção e injustiças do sistema, Leviatã é um filme denso e filosófico acima de tudo. Talvez o seu maior deslize seja abordar diversas temáticas ao mesmo tempo, o que pode levar, às vezes, a um tratamento um tanto superficial destes temas. Certamente, cada olhar sobre um trabalho terá suas particularidades. Em especial, é difícil que o filme possa ser completamente vinculado à obra de Thomas Robbes, o Leviatã, porque ao contrário do que foi divulgado pela mídia, Hobbes via o Estado como uma ferramenta necessária e positiva, que visa conter o caos. Em Leviatã, temos uma crítica a este aparato político burocrático, a partir de bases filosóficas bem profundas, que se não bem acompanhadas pelo espectador, passam despercebidas. Entretanto, o filme, justamente por se tratar de uma temática densa, na sua edição acaba por deixar um queria ver mais, ou poderia discorrer mais sobre tal assunto.
 No meu caso, ainda gostaria que diversas questões ali tratadas fossem mais aprofundadas como a própria relação Estado e Igreja; ou a posição da mulher, que atualmente é pouco retratada nos filmes russos, não tendo o papel central de protagonista que elas, na realidade, têm, e de forma bem acentuada na sociedade russa. Poderia dizer que, ao contrário do que se pensa, as russas fazem o que querem, sendo os valores que as conduzem um prato cheio à criatividade que se predispõe questionadora e analítica. Algo interessante a refletir, pois temos diversos momentos de puro conservadorismo sim, como vejo em algumas classes sociais do Brasil e em outros países. Isso, creio, é pouco representado, não apenas em Leviatã, que apresenta superficialmente os perfis femininos, sendo a personagem central vinculada ao homem e submetida a análise: afinal, Lylia, a esposa de Kolia, que o trai com seu melhor amigo Dmitri, deve ou não ser perdoada pelo que fez? Teria ela sido a principal causa, para que Kolia acabasse por perder a cabeça, fazendo com que toda a vizinhança o reconhecesse como o culpado por sua morte? Aqui temos um conflito interior bastante humano que corre paralelamente com a questão central do filme. Contudo, ele acaba tendo uma vinculação que iremos perceber mais adiante, quando nos fica evidente a temática central do filme.
Podemos perdoar o diretor por esta temática feminina, já que a sua questão chave está na análise dos valores sociais, mencionados acima, e idealizados neste período do século XXI. Lembre que os valores moldam o jeito de viver de cada civilização e geração, promovendo formas de conduta que chegam ao poder, seja ele político, ou financeiro. Descartando esta possibilidade em Leviatã, novamente acabamos caindo em um lugar comum do tipo: "olha como a Rússia de Putin é horrível". Como se todos aqueles problemas que são parte de uma história de séculos, fossem agora motivadas por um homem só. Está é uma visão muito simplória e simplista que não cabe para este filme.
Recapitulando, entre um dos resultados visíveis deste sistema de valores individualista está a volta, cada vez mais forte, do poder religioso, que se tornou uma variável importante e que já caracteriza a nossa época e, no caso específico da Rússia, nos trás perguntas do tipo: estaria isso relacionado ao fim da URSS e seu Estado laico? Ou toda a perda da representação simbólica que os soviéticos eram para diversos grupos políticos espalhados mundo afora agora os tornaram em almas perdidas, que almejam ser resgatadas por alguma fé ou causa de cunho radical, por exemplo? É importante frisar que não se está querendo ferir a fé de ninguém. É possível acreditar e respeitar a fé de cada um, o que considero algo diferenciado de doutrinas religiosas. Na minha concepção, estas são políticas, como qualquer instituição humana, quando falamos da política para além dos partidos políticos. Elas têm seus interesses, inclusive econômicos. A religião aqui tenta suprir o que o sistema dos valores individuais não fornece: a presença do outro. O que pode gerar uma massa de controlados por valores de instituições que ainda carregam doutrinas um tanto arcaicas e pouco compatíveis com o mundo atual.
Por fim, creio que Leviatã coloca uma questão não nova, mas que ainda vale refletir: o quão igual, ou justa pode ser esta sociedade democrática, baseada no respeito aos valores individuais. Para melhor explicar, lembre, que quando houve o fim da URSS, este sistema liberal do Ocidente entrou de forma avassaladora na Rússia, não tendo eles nem tempo hábil para adaptação. Afinal, um novo molde de princípios se instaurava: de que agora o respeito ao indivíduo é a maior nota a ser tocada por lá, falando em português simples. Esqueça a comunidade, esqueça o todo, ou todos, agora o “EU” impera. E uma boa parte do mundo aplaudiu em pé, nos anos 1990.
Só que o “EU” não é apenas legal e respeitoso, é também mesquinho, é egocêntrico, é individualista, é ganancioso, é violento. Não há o “OUTRO” nesta sociedade produtiva, em que se baseia ainda numa suposta interpretação de Darwin, de que o mais forte, vence o mais fraco. Algo que o grande pensador inglês jamais se propôs a fazer. Agora, estes valores não são impostos por um homem "muito mau”, ou um Estado "muito mau", ou um país "muito ruim", ele está em todos nós. Ele faz parte do sistema civilizacional, que alguns adoram dizer, que venceu a Guerra Fria: o liberal e da sociedade “livre”.
Ou seja, é cada um por si. Como menciona o filho de Kolia, que após a morte da madrasta e a prisão do pai, se encontra sozinho no mundo. Contudo, ele afirma não precisar de ninguém. É mais um sobrevivente, ou melhor uma vítima desse sistema de relações humanas cada vez mais caótico. Assim como é Lylia, obrigada a viver em mundo de aparências, pois tenta lidar com os diferentes interesses individuais do marido e do amante. Estamos falando de uma prisioneira, um indivíduo fraco, incapaz de exercer um poder de influencias, de competir e sobreviver.  É esta a ideologia, os princípios que norteiam o sistema político, econômico e social, que tem a petulância  de ainda se dizer não ideológico. E ele é coordenado por quem apresenta maior capacidade de compor os diferentes interesses para se manter no poder. E os que poderem nele sobreviver terão de ser, ou parecer, também articulados, no intuito de poderem caminhar “livres” do perigo nesta selva.
 Ao regressarmos na história, é preciso lembrar que a URSS foi uma tentativa de se opor a este quadro. Se foi bem sucedida ou não, é pauta para outra discussão, mas houve uma tentativa de promover a ideia de que o Estado seria o meio  organizador da sociedade, de forma a criar um outro contexto, uma sociedade com novos valores, que vivesse em comunidade. Com o fim desta perspectiva em 1990, no seu lugar temos o conjunto de influências políticas individuais, que passam a estabelecer as relações necessárias, no intuito de atingirem seus objetivos.
Isso fica muito claro nos personagens de Leviatã, sendo a Igreja talvez a mais poderosa das instituições, pois, para além do poder, ela transmite de forma muito eficaz e sutil os seus valores, e sabe manipular e alienar seus súditos, na medida necessária, para atingir seus objetivos particulares. E, assim, também acaba consolidando crenças e práticas de vida que não condizem mais com a sociedade do século XXI, a exemplo do próprio papel da mulher e do modelo de família que se propõe ser o “correto”. Lembre que, apesar das diversas instituições religiosas existirem na URSS, elas eram suplantadas pelo poder pesado do Estado e sua ideologia, que  não permitia a penetração das doutrinas no aparato estatal. Tal característica de imposição é algo ainda mais antigo que a própria União Soviética. É proveniente de séculos de czarismo, o que nos faz retornar a formação do Estado russo, que foi construído com alguma semelhança aos de Portugal, da Espanha e tantos outros, que tiveram como base a conquista, a anexação do território e a imposição dos costumes e da fé aos povos conquistados. Esta característica foi uma das chaves que aqueles primeiros idealistas soviéticos tinham o objetivo de, aos poucos, eliminar da mentalidade russa. Foram até bem sucedidos, se considerarmos que eles levaram adiante estas transformações em um período histórico que conheceu duas Guerras Mundiais e a Guerra Fria.
O propósito era que a imposição fosse aos poucos substituída pela ideia de que as culturas, respeitando cada uma as suas características próprias, possam viver em uma unidade, já que o lema comum era buscar ascensão social e igualdades materiais e de poder. Certamente, que se trata de uma ideologia, ou Utopia como qualquer outra e que foi suplantada pelos valores desse atual sistema, que tem muito do modo ocidental de ser. Este faz com que a identidade regional dos povos aos poucos seja perdida e promove a brutalidade dos governos, que acabam por apresentar, na realidade, os mesmo problemas, em sua maioria.
Em outras palavras, um Estado que parece contradizer-se, pois ao mesmo que se sobrepõe ao indivíduo, ele almeja proteger os seus direitos. Ora, isto logo se torna claro quando se percebe que a formação de valores que se defende é novamente: o mais forte deve vencer o mais fraco. E, se não bastasse, é parte de uma competição que se diz honesta e que as armas para vencê-la são a notoriedade e o poder de influencia de corações e mentes. 
Não é à toa que hoje o ser célebre, os casamentos relâmpagos, a vida líquida como diria Bauman, são características que infelizmente irão fazer parte também da descrição da nossa sociedade pelas gerações futuras. Afinal, alguém que sai de casa para falar da vida privada e que faz da sua vida pessoal um claro negócio, algo que se chama de marketing pessoal, é tão doente e individualista como o personagem prefeito de Leviatã, Vadim, que apenas busca a consolidação do próprio poder na região, custe o que custar.  Como também é o da Igreja Ortodoxa que almeja ser a fé única, em uma sociedade tão plural culturalmente falando, como a russa. Todo este cenário de concorrência é um absurdo que leva a autodestruição e propaga um sentimento de fraqueza, impotência e submissão total.
Diferentemente da esquerda que é muito crítica com ela mesma, a linha liberal preponderante tem, na maioria de seus seguidores, dificuldade em criticar os valores daquilo que defende. Afinal, o capital também matou muitos, milhares e continua a fazê-lo. Ainda pior, é capaz de, como fã da causa liberal, usar a mídia para preconizar de que não há alternativa e que este sistema, apesar de imperfeito, é o melhor e assim devemos aceitá-lo. E ninguém parece discordar! Como se todos estivessem exaustos de lutar por causas. Enfim, ainda me pergunto: e se esta pessoa conformada tivesse sua casa destruída, como o personagem Kolia, em Leviatã? Estamos em eterna disputa ideológica, que nunca acabará. Pois o homem é um ser pensante e que vive em sociedade. Portanto, as ideias se ajustam e se renovam nos diferentes períodos históricos, sendo de uma forma nos tempos de minha madrinha, que fez parte da geração da Segunda Guerra Mundial, e de outra nos tempos atuais.
Mas sua essência é a mesma, a diferença é que a geração dela poderia argumentar sobre a existência de alternativas civilizacionais possíveis e forma de pensar e agir distintas, já que ela viajou o mundo inteiro. Eu, comecei a viajar ainda mais jovem, porém, cada vez que viajo e vivo mais, percebo que tudo parece mais do mesmo. Afinal, as marcas são as mesmas em qualquer lugar do mundo, elas têm um poder, vinculado aos Estados, que só um Kolia da vida, com seu romantismo ideológico de mudança, mais parecido com épocas passadas, ousaria combater. De quando ainda existia o grito de guerra: “Trabalhadores, uni-vos!”, e não o “quem quer ser um milionário?”. Portanto, nosso fatídico personagem tem pernas e braços muito curtos, é impotente e, por isso, bebe para esquecer o fracasso. Kolia não é apenas russo, é universal.
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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Moscou, ah Moscou...!















Moscou, ah Moscou...!

Os poucos dias que passei, e que passamos, em Moscou mostraram-me uma cidade mais aberta e receptiva ao estrangeiro que das outras vezes que estive lá. A força é a mesma. A grandeza é a mesma. E contagiante. Mas, diferente de alguns anos atrás, me parece, é uma força de certa forma libertada, desamarrada. Parece que os russos estão mais seguros e confiantes em si mesmos. Sim, ainda mais.
Estive lá pela primeira vez em 1997, poucos anos após o fim do socialismo. Afora o deslumbramento por tudo e pela minha primeira grande viagem internacional, percebi um povo mais refratário ao estrangeiro, olhando com certa desconfiança e talvez espanto. Às vezes mesmo ignorando-nos. Não havia vitrines, quiçá lojas, os restaurantes eram quase secretos, não se os via. As pessoas no metrô eram mais silenciosas, as fotos mais desafiadoras (mas já permitidas). Os moscovitas eram quase impenetráveis. E mesmo assim apaixonei-me desde o primeiro instante; desde a chegada ao aeroporto.
Na segunda vez, em 2008, foi tudo mais tranquilo. Deslumbrei-me com a beleza de São Petersburgo; com os palácios, igrejas, com os canais e com o balet; com a avenida Nevski e com as Noites Brancas. Com o povo na rua aproveitando cada minuto de sol do verão e de um dia que se estendia até depois da meia-noite (o sol da meia-noite)... na Nevski... Um povo já receptivo aos turistas, já um pouco mais acolhedor e curioso.
Em Moscou os velhos “Ladas” iam desaparecendo, as luzes capitalistas se acendendo, a “Velha Arbat” se colorindo, a Tverskaia se congestionando e a Praça Vermelha sempre cheia, mais fotografada que a Torre Eiffel. Moscou também é bela no verão.
Agora em 2015 vi uma Moscou cosmopolita, em franca abertura, jogando o jogo, enfrentando os desafios e problemas advindos de uma transição muito rápida, querendo interagir com os estrangeiros, curiosa e mais acolhedora. (numa manhã ao perguntar a um jovem russo que passava em frente ao hotel onde ficava a estação do metrô ele me levou até lá, pagou o meu bilhete pois eu estava chegando e ainda não tinha Rublos, e ainda me emprestou, ou deu, 50 rublos para eu pagar a volta só pelo prazer de saber do Brasil, do que eu fazia lá, do que eu achava da Rússia. E eu, no meu precaríssimo russo tentei retribuir a sua curiosidade. Fiz um amigo em minutos).  Moscou está recebendo e fazendo muitos investimentos. Hotéis, cafés, restaurantes, lojas, pontos turísticos, galerias de arte, metrô, está tudo muito acessível.
Penso que os russos encontraram em Putin a estabilidade e segurança para que pudessem se desenvolver em plenitude. O russo, um povo educado e patriótico, inteligente e forte, quando de mãos desamarradas constrói coisas grandiosas. E isso é o que vimos em Moscou em todas as áreas: dos hotéis às igrejas, das ruas às empresas, do metrô à moderna Moscou City, da Universidade à Tretiakovskaia Galeria.
Numa reunião com a Associação de Empresários de Moscou, perguntado se ainda alguém sentia saudades do socialismo o russo respondeu: “a Rússia entrou no capitalismo mas ainda guarda muitas coisas do socialismo (as pessoas querem a segurança de um Estado forte, interventor, protetor e que dê garantias)”. Disse que esse era um assunto para ser debatido em outra mesa (num bar) com outro líquido (não água) sobre ela e por muito tempo, ou seja, é um debate ainda aberto “o que se ganhou e o que se perdeu com o capitalismo”. Mas não se fala em volta. Hoje se pode debater livremente e o bom humor russo (sim, o russo é bem humorado, simpático) pode ser externado francamente.
Moscou vive um ótimo momento; muito dinâmico. E como nos disseram por lá, a Rússia passa por Moscou.

O Dia da Vitória
Foi um presente inusitado, um acréscimo, estar em Moscou no dia nove de maio, data em que os russos comemoram do Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial (este ano comemorando os 70 anos).
Esse conflito para os russos tem um caráter particular. Em 1941 seu território foi invadido por Hitler em três frentes com três milhões de soldados.  Os russos resistiram feroz e heroicamente à invasão. Para eles essa guerra é chamada de Grande Guerra Patriótica porque foi uma guerra em defesa de sua própria existência enquanto Nação.
Vinte e cinco milhões de russos morreram defendendo o país nos quatro anos de guerra. Venceram os nazistas e os fizeram recuar até Berlim.  Sim, os russos foram os primeiros a entrar em Berlim em 1945, a derrotarem os nazistas e conquistarem sua rendição, dando fim ao projeto de Hitler.
Era feriado nacional no dia 09, e desde cedo milhares e depois milhões de moscovitas saíram às ruas para assistirem aos desfiles militares e prestarem suas homenagens aos heróis da pátria. Milhares levavam cartazes com fotos dos soldados, seus familiares, mortos na guerra; de crianças aos anciões todos com um profundo respeito. Apesar do feriado o metrô estava lotado.
Tive oportunidade de ver andando na rua e acompanhar um veterano da resistência (certamente com mais de 90 anos) acompanhado de sua filha. As pessoas paravam, tiravam fotos, outras muitas lhe entregavam flores, outros batiam continência. Era quase uma veneração.
No desfile militar pude ver o entusiasmo e a identidade que o povo tem com os seus militares.
Bem, essa é a Rússia; Um povo que se lança seguro rumo ao futuro. Um povo forte, educado e culto, que tem exata a noção de Pátria, que pagou um alto preço por sua liberdade e que, por tudo isso, não tenho dúvida será (ou já é) uma peça chave na geopolítica do milênio que recém se inicia.

O Bolshoi – ter ido no Bolshoi e na Galeria Tretiakov de arte russa merecem um outro artigo. O metrô também; e a Praça Vermelha também. O impacto disso tudo para o grupo de brasileiros do nosso MBA que esteve lá também. Escreverei.



segunda-feira, 8 de junho de 2015

E k a t e R i m B u R g o







E k a t e R i m B u R g o

Mais do que a cidade onde foi morto o último Czar da Rússia; mais do que a cidade para onde a indústria foi removida durante a II Guerra Mundial e que abasteceu a resistência ao nazismo; mais do que a cidade “secreta” da era soviética, dos grandes projetos científicos e militares; mais do que a cidade que separa (ou une) a Rússia europeia da Rússia asiática; mais do que a cidade de Boris Ieltsin. Mais também do que a cidade por onde passa a ferrovia Transiberiana a caminho da Mongólia, do Baikal, da China e de Wladivostok, por onde sopra o vento dos Urais...
Ekaterimburgo, uma cidade ensolarada na primavera, foi fundada em 1723 durante o reinado do czar Pedro, o Grande e foi nomeada em homenagem a sua esposa Catarina I, portanto tem quase trezentos anos e desde o seu início possui uma vocação industrial e estratégica para o país. É a quarta maior cidade da Rússia, situada no centro do país. (Senão o centro geográfico, o centro estratégico porque próxima e acessível a grande economia asiática, um dos eixos fundantes da Rússia do futuro.)
Com 1,5 milhões de habitantes, distante dos quase 12 milhões de Moscou e dos quase 5 milhões de São Petersburgo, Ekaterimburgo vive um bom momento. Cidade situada numa zona de muitos recursos naturais, particularmente minerais, tem já uma tradição industrial (mesmo que por muito tempo estatal) é um grande polo científico e de inovação da Rússia.
Capital da região dos Urais, Ekaterimburgo foi sede da reunião dos BRICS em 2009 que examinou os efeitos da crise norte-americana de 2008 para o mundo e hoje vem se consolidando como um grande centro de feiras e eventos internacionais, seja na área da indústria civil ou militar, seja no campo científico e acadêmico, seja na área do comércio regional e internacional, seja voltados para a Ásia, seja voltados para o Ocidente, seja voltados para o Sul.
Em 2018 Ekaterimburgo será uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol e já está se preparando para fazer deste evento uma oportunidade de negócios e de incremento do turismo. Tarefa difícil esta última frente a polarização que exercem Moscou e São Petersburgo nessa área.  Ekaterimburgo permaneceu uma cidade “fechada” durante o regime soviético; era difícil um estrangeiro visitá-la assim como era difícil um cidadão seu deixá-la. Muitos projetos de interesse da segurança soviética eram desenvolvidos ali.
Em recente visita de estudos à cidade tivemos a oportunidade de conhecer grandes indústrias, uma siderúrgica, uma fábrica de lâminas e fios de cobre, entre outras, assim como conhecer a Universidade Federal dos Urais e o seu projeto de desenvolvimento da nanotecnologia. Conversamos com pesquisadores, professores e estudantes. Ficamos satisfeitos ao saber, e conhecer, brasileiros que estão lá se aperfeiçoando.
Reunimos com a Associação Empresarial dos Urais com a qual pudemos constatar o imenso profissionalismo e seriedade com que jovens e novas lideranças da cidade e da região projetam e preparam o futuro. É preciso lembrar que no campo empresarial tudo é relativamente novo na Rússia pois até pouco mais de vinte anos atrás tudo era socialista-estatal. Compreende-se assim a pressa e o empenho em acertar.
Nestes contatos procuramos estreitar relações econômicas, sociais e políticas entre essa cidade e as nossas cidades brasileiras, entre a Rússia e o Brasil, dois grandes dos BRICS que tem muito em comum e ao mesmo tempo tem muito a aprender e ensinar um ao outro.
Pelo que vimos, pela disposição aberta e séria com que fomos recebidos, pelo profissionalismo da postura, pela jovialidade das iniciativas e pela perfeita consciência do momento histórico que estão vivendo podemos afirmar com tranquilidade que Ekaterimburgo e os Urais são peça fundamental na nova Rússia que vemos nascendo.